1939, um ano que valeu por um século

Cine Humberto Mauro exibe até 5 de fevereiro 19 filmes da safra que é considerada até hoje o ápice do cinema clássico

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Maior bilheteria de todos os tempos com US$ 4,5 bilhões arrecadados, “..E o Vento Levou” é clássico atemporal
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Maior bilheteria de todos os tempos com US$ 4,5 bilhões arrecadados, “..E o Vento Levou” é clássico atemporal

“Francamente, minha cara, eu não dou a mínima”. “Toto, acho que não estamos mais no Kansas”. “Existem coisas das quais um homem não pode fugir”. Três das frases mais inesquecíveis e icônicas da história do cinema – proferidas, respectivamente, em “...E o Vento Levou”, “O Mágico de Oz” e “No Tempo das Diligências –, elas chegaram às telas no mesmo ano: 1939.

Considerado por muitos a melhor safra da história de Hollywood, o marco completou 75 anos em 2014. E o Cine Humberto Mauro comemora a data agora com a “Mostra 1939”, que começa hoje e vai até o dia 5 de fevereiro. No total, serão exibidos 19 longas que ajudaram a construir a mitologia desse “Eldorado” do cinema clássico norte-americano.

São filmes dirigidos por John Ford, William Wyler, Raoul Walsh e estrelados por nomes como Bette Davis, James Stewart, Vivien Leigh e John Wayne. Mas mais do que grandes astros, essas produções se eternizaram por representarem o ápice do sistema dos grandes estúdios e a consolidação e o aprimoramento da linguagem clássica criada por D. W. Griffith.

No romantismo brejeiro de “...E o Vento Levou”, na fantasia bucólica de “O Mágico de Oz” e no idealismo político de “A Mulher Faz o Homem” e “A Mocidade de Lincoln”, está expressa quase perfeitamente a síntese do imaginário que Hollywood havia construído até então. Um mundo de heróis e vilões, de valores morais bem definidos pelos quais se valia a pena lutar, de pretos e brancos marcados e cores fortes que traduziam as certezas e os rígidos preceitos que regiam aquele universo – e que seriam demolidos, ou no mínimo transformados, na Segunda Guerra, que se iniciava.

Gêneros. Um dos grandes destaques da seleção, sem dúvida, é John Ford. O cineasta dirigiu e lançou nada menos que três longas em 1939, todos exibidos na mostra. Além do mais conhecido “No Tempo das Diligências”, que lhe rendeu a segunda de suas cinco indicações ao Oscar, ele comandou ainda o ótimo “A Mocidade de Lincoln”, sobre a juventude do icônico presidente norte-americano, e “Ao Rufar dos Tambores”, faroeste passado durante a Revolução Americana de 1776.

A lista de obras de Ford é uma ótima síntese do conjunto da mostra: a combinação de grandes clássicos bastante conhecidos e outras obras de qualidade equivalente, mas que não ganharam o caráter icônico de suas contemporâneas. Para quem já conhece “Oz”, “E o Vento...”, “Diligências” – ou mesmo o melodrama de “O Morro dos Ventos Uivantes” e as grandes performances de Greta Garbo em “Ninotchka” e James Stewart em “A Mulher Faz o Homem” – e quer partir para novas experiências, a retrospectiva é uma boa oportunidade para desbravar títulos menos conhecidos de 1939.

O grande Raoul Walsh faz uma prévia do que viria a ser o cinema noir no policial “Heróis Esquecidos”, por exemplo. No longa, a sombra da Segunda Guerra que daria origem à ambivalência moral do noir anos depois é sentida pelos efeitos da Primeira Guerra, de onde os três protagonistas vividos por Humphrey Bogart, James Cagney e Jeffrey Lynn chegam para encarar o mundo do crime e da Lei Seca nos EUA dos anos 1920.

Outras boas sugestões são a performance de Bette Davis como uma paciente terminal em “Vitória Amarga”, uma das melhores de sua carreira. Ou as aventuras despretensiosas dirigidas por Howard Hawks (“Paraíso Infernal”) e George Stevens (“Gunga Din”), últimos reflexos de uma inocência geopolítica pré-Segunda Guerra.

E finalmente comprovando 1939 como ano de ouro do cinema de gênero, a comédia é representada pelos melhores “Os Irmãos Marx no Circo” e “As Mulheres” de George Cukor. Rindo, chorando ou se emocionando, 1939 é para todos os gostos.

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