Mais branco impossível

Lista de indicados divulgada ontem representa retrocesso no processo de maior diversidade apontada no ano passado

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Salgado representa Brasil com “Sal da Terra”
IMOVISION
Salgado representa Brasil com “Sal da Terra”

As indicações ao Oscar 2015, anunciadas na manhã de ontem e lideradas por “O Grande Hotel Budapeste” e “Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância)” com nove cada (veja lista das principais categorias na página 2), deixaram duas coisas bem claras. A primeira e mais importante é que 2014 realmente foi uma exceção que confirma a regra.

Depois de um ano com indicados não-brancos aos prêmios de atuação, direção, roteiro e as vitórias de um diretor latino (Alfonso Cuarón) e “12 Anos de Escravidão”, um filme sobre a experiência negra, a Academia voltou a provar que é um grupo de homens brancos, caucasianos e heterossexuais. Nada deixa isso mais claro que os rostos exclusivamente brancos nas quatro categorias de atuação, algo que não acontecia há mais de 20 anos.

A falta de diversidade é ainda mais grave quando uma das principais apostas de críticos e especialistas no fim do ano passado era “Selma”. O filme sobre a luta de Martin Luther King na cidade do título pela universalização do direito ao voto nos EUA arrebatou audiências nos festivais por que passou. E levantou a possibilidade de uma mulher negra, Ava DuVernay, ser indicada a melhor direção pela primeira vez na história.

As injustiças dos grandes júris em Ferguson e Nova York, com dois policiais inocentados pelo assassinato de jovens negros, tornaram o longa ainda mais atual e levaram muitos a acreditar que ele se tornaria o favorito ao prêmio de melhor filme.

No entanto, nem isso, nem Oprah Winfrey (produtora e atriz de “Selma”) foram capazes de convencer a Academia. O longa de DuVernay recebeu míseras duas indicações – melhor filme e melhor canção original, para “Glory”, que ganhou o Globo de Ouro no último domingo.

Enquanto isso, a narrativa dominante foi a difícil vida dos grandes homens brancos: o gênio injustiçado (“O Jogo da Imitação”, com oito indicações); o gênio doente (“A Teoria de Tudo”, com quatro); o aspirante a gênio (“Whiplash”, cinco); o herói de guerra (“Sniper Americano”, seis). Todas histórias que reforçam o mito da centralidade e superioridade caucasiana. Todos indicados a melhor filme. Nenhum dos oito candidatos a melhor longa, por sinal, é protagonizado por uma mulher.

A segunda coisa que as indicações deixaram claro é diretamente ligada à primeira. Muito ocupados filmando o ano inteiro, os membros da Academia não vão ao cinema e dependem fortemente dos screeners – DVDs enviados pelos estúdios para divulgar seus candidatos – na hora de fazer suas escolhas.

O que ajuda muito longas como “O Jogo da Imitação”, que tem um tema importante, mas uma realização técnica quase banal e, consequentemente, funciona bem melhor na TV do que algo como “Interestelar”. O resultado? O desconhecido norueguês Morten Tyldum é indicado a melhor diretor por seu trabalho sem assinatura no filme, enquanto a excelência de David Fincher em “Garota Exemplar” passa batido.

Isso também explica em parte o fracasso de “Selma”. O longa ficou pronto nos 45 do segundo tempo e seus screeners foram enviados na última hora. Enquanto isso, produções como “O Grande Hotel Budapeste” e “Boyhood” (seis indicações, incluindo melhor filme) estavam entre os primeiros enviados. A boa performance de “Budapeste”, por sinal, marca a primeira vez que o cinema peculiar de Wes Anderson, indicado a diretor, é reconhecido pela Academia.

A lista de 2015 também deixou claros alguns pontos menores. Por exemplo, a Academia nunca vai esquecer e perdoar se você esteve em “Friends”. Jennifer Aniston, portanto, perdeu uma antecipada indicação por sua elogiada performance em “Cake – Uma Razão para Viver” para o trabalho mais prestigioso e requintado de Marion Cotillard em “Dois Dias, Uma Noite”, dos irmãos Dardenne, a indicação menos esperada entre as atrizes.

Por outro lado, eles adoram Bradley Cooper. Com “Sniper Americano”, ele se tornou o primeiro ator a receber três indicações seguidas desde Renée Zellwegger (por “Bridget Jones”, “Chicago” e “Cold Mountain”). Uma elogiada temporada na Broadway atualmente como “O Homem Elefante” não atrapalhou.

E se a Academia não é muito fã do cinema nacional, eles respeitam ao menos Sebastião Salgado. “Sal da Terra”, o documentário sobre o fotógrafo dirigido por seu filho Juliano ao lado de Wim Wenders, foi um dos cinco indicados na categoria. Juliano terá a companhia brasileira de Maurício Osaki, cujo “O Caminhão do Meu Pai”, coproduzido com o Vietnã, foi indicado a melhor curta live-action.

No geral, porém, a lista estabeleceu um duelo entre os grandes dois grupos da Academia. Os atores, que apoiaram “Birdman” com três indicações. E os técnicos, que deram seis das nove de “Budapeste” – design de produção, fotografia, figurino, maquiagem, montagem e trilha. Entre os dois, porém, permanece “Boyhood”, que conseguiu todas as indicações que se esperava – filme, diretor, roteiro, edição, ator e atriz coadjuvantes – mantendo o título do “pequeno favorito que todos amam”. E que, para o bem e para o mal, e com todos os seus méritos, não deixa de ser a história de uma família... branca.

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