Descaso pode gerar falta de água na Várzea das Flores

Prefeituras e Copasa fazem “jogo de empurra”; seca e imóveis irregulares ameaçam represa, que abastece BH, Contagem e Betim

iG Minas Gerais | Ludmila Pizarro/Dayse Resende |

Rotina. 
Mesmo com o nível de água bem abaixo da média, pescadores vão à lagoa em busca de peixes
Alex Douglas / O Tempo
Rotina. Mesmo com o nível de água bem abaixo da média, pescadores vão à lagoa em busca de peixes

 

A lagoa Várzea das Flores, que abastece Betim, Contagem, parte de Belo Horizonte e outras cidades vizinhas, está sofrendo as consequências da falta da chuva em Minas Gerais e das ocupações irregulares que a cercam. Para o superintendente da Defesa Civil de Betim, José Coelho Ribeiro, falta atuação da Copasa e de outros órgãos do poder público para evitar um agravamento da situação. “A Copasa tinha que olhar também para as nascentes, para o entorno da lagoa”, afirma. Ele denuncia que imóveis de alto padrão estão poluindo a lagoa.   Segundo a Copasa, porém, o nível de água da lagoa está normal no momento, atingindo cerca de 1.300 litros por segundo. A companhia não informou quanto a lagoa já perdeu de volume nos últimos meses por causa da seca e das moradias irregulares.   A lagoa Várzea das Flores fica na divisa entre Betim e Contagem e faz parte do sistema Paraopeba da Copasa, junto com as barragens do Rio Manso e Serra Azul. A lagoa atende a cerca de 400 mil famílias, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).   Além de pouca chuva, outro problema grave é a falta de preservação das matas ciliares, o que está acabando com as nascentes próximas. “Não se pode construir na orla da lagoa”, explica o secretário Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura de Contagem, Ivanyr Soalheiro. Mesmo assim, as construções estão presentes em todo o contorno. “Em 2014, fizemos uma força-tarefa com os órgãos envolvidos, as prefeituras de Betim e Contagem, a gestão da Área de Preservação Ambiental (APA) e com a Copasa para impedir novas ocupações irregulares”, afirma Soalheiro.    Para o biólogo e diretor-executivo da ONG Kaluana, Gleyder Carneiro, a situação é preocupante. “As prefeituras e a Copasa não dialogam. Não há fiscalização. Enquanto isso, há queimadas, desmatamentos, invasões e muito lixo na mata de preservação ambiental no entorno da lagoa”.  Os órgãos envolvidos, entretanto, não concordam sobre a responsabilidade de cada um. A Prefeitura de Betim afirmou via nota que tais construções que estão no seu lado da lagoa e “estão a uma distância inferior a 30 metros das margens estão sendo autuadas e encaminhadas para licenciamento na APA”.   Já a Semad, que administra a APA, por sua vez, afirmou que, “como 90% dessa unidade de conservação está inserida no município de Contagem e 10% em Betim, as respectivas prefeituras também têm responsabilidade sobre o território municipal, visto que o IEF é um órgão estadual, não tendo assim como responder sozinho por todas as ocorrências dentro da APA”.   Para Soalheiro, a Copasa poderia estar mais presente na região. “Deveria fazer desapropriações”, opina. Já a Copasa informa que “o licenciamento de condomínios e a regulamentação das atividades na lagoa são feitos pelos órgãos públicos municipais e estaduais”.      Pescador diz que peixes estão sumindo Como é aberta ao público, a lagoa Várzea das Flores, na divisa entre Contagem e Betim, recebe visita de banhistas e pessoas que pescam por lazer. “Nunca vi a lagoa assim. Um tronco que ontem estava embaixo da água hoje já está exposto”, diz o aposentado Altamiro Cruz da Silva, 82, que vai à lagoa pescar todos os dias.   Segundo o “Seu Cruz”, como o conhecem, o número de banhistas está caindo, e os peixes começam a ficar escassos. “Mas ainda é possível tirar até traíra da lagoa”, afirma.   O operador de prensa Ilídio Almeida dos Reis, 37, aponta as nascentes secas e diz que nadava há dois anos em uma “piscina” que hoje está seca próxima à lagoa. “Hoje, não tenho coragem de entrar na água, porque ela está parada. Como as nascentes estão secas, não entra água nova; prefiro evitar”.   A falta de água das nascentes preocupa a equipe da Defesa Civil de Betim. “Não adianta só retirar a água se não tiver uma forma de reposição. Para isso, as nascentes são fundamentais”, opina o engenheiro agrônomo da Defesa Civil Marcelo Lara.   Outro engenheiro da Defesa Civil, Josué Moura também critica a falta de cuidado de quem visita a região. “Vem muita gente de moto, jipe, e invade a área de preservação. Isso causa assoreamento e prejudica as nascentes”, declarou.   

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