Nas mãos de três gerações

FMC anuncia um novo trio de curadores para o FIT-BH 2016

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Walmir José. Dramaturgo, ator e diretor. Coordena teatro e circo na Escola Livre de Artes Arena da Cultura
Thainá Nogueira/ Divulgação
Walmir José. Dramaturgo, ator e diretor. Coordena teatro e circo na Escola Livre de Artes Arena da Cultura

O Festival de Teatro, Palco e Rua de Belo Horizonte – FIT-BH anunciou ontem novos curadores que, desde já, começam a preparar a edição 2016. São representantes de três gerações do teatro mineiro: Walmir José, 66, Eduardo Moreira, 53, e Diego Bagagal, 31. Uma mudança significativa de perfil em relação ao ano passado.

Um aspecto importante é que a antecedência na formação do corpo curatorial do festival garante valiosos meses a mais para pesquisa de espetáculos, sobretudo no âmbito internacional. “Em 2015, a curadoria vai poder viajar pelos países sul-americanos e europeus para buscar espetáculos nos festivais de teatro, que acontecem 50% deles no verão europeu, e onde estão trabalhos do mundo todo”, disse o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Leônidas de Oliveira, em coletiva realizada na manhã de ontem. Para ele, o adiantamento da definição dos curadores há de garantir “um festival de grande qualidade estética”. “Quanto mais planejamento, melhores os resultados e os custos”, observa.

Garimpo. Diego Bagagal embarca na próxima semana para Londres, cidade onde cursou uma pós-graduação em Creating Theatre e Performance, e à qual retorna para acompanhar o London Mime Festival, reunir-se com o Battersea Arts Center (BAC), organizadores do CASA Festival, Barbican, coletivo Shunt, entre outros, e ainda conhecer os trabalhos de companhias como Punch Drunk, Complicité, DV8, além de artistas como David Glass. O intuito é garimpar parcerias possíveis e espetáculos para a programação do FIT-BH 2016.

Bagagal é ator, dramaturgo e diretor do grupo Madame Teatro, parceiro frequente do Cine Horto Galpão (onde montou com o Oficinão o espetáculo “Pop Love”) e mantém um diálogo com instituições internacionais de pesquisa de teatro contemporâneo. É um olhar jovem, atento às discussões de gênero, corpo e a uma linguagem pop e de vanguarda.

Eduardo Moreira traz a experiência do teatro de grupo e de rua acumulada em três décadas de trabalho com o Grupo Galpão, do qual é um dos fundadores e com o qual gestou, em 1992, o Festin – Festival Internacional de Teatro, que originou o FIT-BH.

Walmir José responde por uma certa tradição do teatro mineiro e por uma aproximação maior com a dramaturgia clássica. Teve uma carreira intensa nos palcos de Belo Horizonte, com passagens pela companhia Gruta, dirigido por Alcione Araújo nos anos 70, e pelo Grupo de Teatro AMI. Mais tarde, direcionou a carreira para a formação de artistas, participou da criação da graduação em teatro na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), foi coordenador do curso de teatro do Cefar e da Escola de Teatro da PUC Minas e, desde 2013, coordena a área de teatro e circo da Escola Livre de Artes Arena da Cultura.

Coexistência. Eles substituem Geraldo Peninha e Jefferson da Fonseca à frente da curadoria, após a edição 2014 ter apresentado uma queda na qualidade geral da programação nacional em relação a 2012 – salvo exceções como “Cine Monstro”. Cássio Pinheiro permanece na comissão organizadora. A diretriz da “coexistência” permanece no intuito de diversificar os estilos e alcançar cidadãos desabituados à fruição artística. “Queremos o acolhimento da cidade em sua totalidade e que pessoas não incluídas nos processos sociais possam ser despertadas para o teatro”, diz Oliveira.

Contudo, o novo trio de curadores ainda vai discutir por quais caminhos seguir. “Um bom espetáculo apresentado ao público que nunca foi ao teatro é a melhor contribuição que se pode dar para popularizar a arte”, disse Eduardo Moreira.

Outra ideia já vigente, expressa pelo presidente da FMC, é “fortalecer o espaço público como local de ação artística”. Segundo Leônidas de Oliveira, o festival deve apostar nessa retomada, como parte de um movimento mais amplo da prefeitura no sentido de um posicionamento mais simpático com as iniciativas de ocupação de ruas e praças. “Estamos repensando o licenciamento para o espaço público, que hoje é muito burocrático. Deve sair nos próximos meses uma nova diretiva, mais livre e com menos obrigações”, disse Oliveira, reconhecendo a dificuldade para artistas usufruirem áreas públicas da cidade.

Quanto à linha curatorial, ainda é incerta. Cássio Pinheiro destacou a diversidade de visões apresentada por Bagagal, Moreira e José e valorizou as divergências como necessárias à composição de uma programação plural.

“A gente ainda está trocando ideias”, disse Moreira. Ele e os outros dois curadores esperam por reuniões com a classe artística e encontros com o público para entender as demandas do festival e tomar posições. “Nosso grande desafio é potencializar a capacidade do festival de se relacionar com a cidade – com o público, com a classe artística e com o espaço público”, disse o curador. “A gente está nesse momento de levantar questões, de escuta e de fazer avaliações”, completou.

Walmir José acrescentou que o trio está ainda entendendo qual é a “cara” que o FIT-BH adquiriu ao longo dos anos e que geografia pretende atingir. Bagagal, por sua vez, também deixou em aberto os rumos do trabalho, mas adiantou que eles não pretendem fazer uma curadoria “neutra”.

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