Uma violência chocante, mas sem muito significado

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Entrega física do ator Jack O’Connell é um dos destaques do longa
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Entrega física do ator Jack O’Connell é um dos destaques do longa

Existe um motivo para o grande sucesso de “Invencível” no meio-oeste norte-americano – e que pode fazer com que ele se repita no Brasil, com um perfil de público bastante semelhante. O filme, que estreia hoje, é uma parábola do preceito católico-cristão de que o sofrimento terreno é um desígnio divino que serve de provação para a glória eterna.

Como um padre (não por acaso) afirma no início do longa, “Deus governa sobre o dia e a noite”, a alegria e a dor – tudo advém dEle. E o irmão do protagonista complementa: “Um minuto de dor vale por uma vida de glória” – uma paráfrase da ideia de que a purgação na terra vale pela vida eterna no reino dos céus.

“Invencível” encontra um exemplo máximo dessa provação na história real de Louie Zamperini (Jack O’Connell). Depois de uma infância de pequenos delitos e confusões, o filho de imigrantes italianos se tornou um medalhista olímpico em 1936 como corredor, lutou na Segunda Guerra e, após um acidente aéreo, passou 47 dias à deriva no mar, foi resgatado por japoneses e sobreviveu por meses sendo espancado e torturado em um campo de prisioneiros.

Em seu segundo longa como diretora, Angelina Jolie conta com a bela fotografia do mestre Roger Deakins para transformar esse “dia e noite” em desígnios igualmente cruéis – no sol escaldante das cenas à deriva no mar, e na escuridão sufocante e desoladora do campo de prisioneiros. Mas, assim como no longa anterior, Jolie parece fascinada pela violência sádica de que o ser humano é capaz em conflitos assim – sem, no entanto, conseguir encontrar um significado maior no choque gráfico dessas imagens.

“Invencível” repete o mesmo problema de “Na Terra de Amor e Ódio”: aliar imagens de extrema violência física e psicológica a uma história que não consegue explorar a complexidade por trás delas. O retrato dos japoneses como carrascos sádicos feito pelo longa, especialmente o vilanesco Ave (vivido pelo popstar asiático Miyavi), é um reflexo da falta de sutileza e mão pesada da produção, que a deixa a anos-luz de outras que exploraram temas similares, de “As Aventuras de Pi” a “Cartas de Iwo Jima”.

Roteiro. E o roteiro, assinado por ninguém menos que os irmãos Coen, nunca é capaz de integrar os flashbacks de Louie como corredor organicamente à narrativa. Eles só servem para estabelecer o vigor e o espírito de Zamperini e sua superação no final das provas.

Eles vão se consolidar no clímax do confronto final entre Louie e Ave – numa imagem que sintetiza todo o tema do longa, sobre o espírito indômito e inquebrável de seu protagonista, ao mesmo tempo em que representa claramente o retrato óbvio e simplista da Segunda Guerra feito pela produção.

O contraste resume bem a encruzilhada de “Invencível”: uma narrativa ultrapassada e ufanista da guerra, e uma história do espírito indomável do “grande herói americano”. Esta última se sai melhor, carregada pela fisicalidade, entrega e carisma do astro em ascensão O’Connell e pelas belas imagens de Deakins.

Mas a primeira exigia bem mais de Jolie e dos Coen, que deixam claro no letreiro final como se encantaram equivocadamente pelo sofrimento repetitivo de seu herói na guerra e perderam a chance de explorar algo realmente interessante: como ele superou tudo isso depois e perdoou seus algozes. Mas essa é a parte difícil, que não se resolve com imagens gráficas de mocinhos e vilões – e que não é para qualquer um. (DO)

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