Jornais do mundo todo publicam capa do Charlie; muçulmanos reagem

A imagem foi considerada "provocadora" por autoridades do mundo muçulmano

iG Minas Gerais | AFP |

A handout document released on January 12, 2015 in Paris by French newspaper Charlie Hebdo shows the frontpage of the upcoming
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A handout document released on January 12, 2015 in Paris by French newspaper Charlie Hebdo shows the frontpage of the upcoming "survivors" edition of the French satirical weekly with a cartoon of the Prophet Mohammed holding up a "Je suis Charlie" ('I am Charlie') sign under the words: "Tout est pardonne" ('All is forgiven'). The frontpage was released to media ahead of the newspaper's publication on January 14, 2015, its first issue since an attack on the weekly's Paris offices last week left 12 people dead, including several cartoonists. It also shows Mohammed with a tear in his eye. AFP PHOTO / HO /CHARLIE HEBDO = RESTRICTED TO EDITORIAL USE -- MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / HO/CHARLIE HEBDO- NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS -- DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS

Veículos de comunicação do mundo inteiro - de jornais a sites - publicaram nesta terça-feira a capa do próximo número do semanário satírico "Charlie Hebdo", mais uma vez com o profeta Maomé e que chega amanhã às bancas francesas.

A imagem foi considerada "provocadora" por autoridades do mundo muçulmano.

Nesta última edição, Maomé aparece de roupa e turbante brancos e deixa correr uma lágrima. Nas mãos, segura o cartaz com a inscrição "Je suis Charlie" (Eu sou Charlie). Este foi o slogan dos milhões de manifestantes que foram às ruas na França e em cidades do mundo todo em repúdio aos ataques em Paris e suas 17 vítimas fatais na semana passada. Logo acima do profeta, aparece a frase "Tudo está perdoado".

Organizações que representam os entre 3,5 e 5 milhões de muçulmanos franceses fizeram um apelo pela "calma" e que "se evite reações emocionais".

Já no exterior, o tom foi de revolta, como no caso do mufti egípcio, Ibrahim Negm, que classificou de "provocação injustificada para os sentimentos de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo".

"Denunciamos a violência e respeitamos a liberdade de opinião, mas a outra parte deve compreender que amamos o profeta Maomé", explicou.

Traduzida para vários idiomas, incluindo o português, o árabe e o turco, a nova edição terá uma tiragem de 3 milhões de exemplares, contra os habituais 60 mil. Serão 16 páginas de humor e de homenagem aos mortos da equipe de redação. Entre eles, estão cinco dos mais importantes cartunistas franceses. O valor arrecadado com a venda dos exemplares será destinado às famílias das vítimas.

"Foi por causa de uma charge de Maomé que morreram, é com uma charge de Maomé que voltarão à vida", escreveu o "Jornal de Negócios" de Portugal, nesta terça.

Nos veículos muçulmanos, a capa não foi reproduzida, porque o Islã proíbe a representação do profeta.

Em outros países, os jornais que decidiram publicá-la justificaram sua escolha.

"Por um lado, ao publicar essa capa, corremos o risco de ofender alguns dos nossos leitores. Por outro, se não a publicarmos, ofenderemos um número ainda maior dos nossos leitores, que querem que tomemos uma posição contra o que esses ataques na França representaram", explicou o editor-chefe do site australiano <news.com.au>, Daniel Sankey.

Europa em massa publica capa do Charlie Na maioria dos países europeus, jornais e sites reproduzem a capa do "Charlie". Na Grã-Bretanha, porém, "The Independent" é o único dos grandes jornais a publicá-la em sua versão impressa.

O jornal "The Guardian" reproduz a imagem em sua página online, destacando que "o editorialista sobrevivente do semanário satírico francês afirma que essa capa é um pedido de perdão aos terroristas que assassinaram seus colegas na semana passada".

Já o "Daily Telegraph" optou por reduzir a reprodução para não expor a figura do profeta.

O vice-primeiro-ministro britânico, Nick Clegg, defendeu a disseminação da capa do "Charlie" por ser, segundo ele, parte do "combate ideológico" para manter uma sociedade livre.

Na Dinamarca, vários jornais publicaram a capa em suas versões online, entre eles "Berlingske", "Politiken", "Information" e "Ekstra-Blade", enquanto "Jyllands-Posten" preferiu não reproduzi-la. Foi esse último que provocou a primeira grande polêmica mundial, ao divulgar uma série de charges de Maomé em 2005. Desde então, tem tido uma postura mais discreta sobre o tema.

Na Rússia, apenas o jornal "Kommersant" apresenta a capa do "Charlie". Na Turquia, um país muçulmano, a imprensa descreve o novo número do semanário satírico, mas não o exibe.

No Irã, o site de notícias "Tabnak" afirma que o Charlie "insulta mais uma vez o profeta".

"A onda de insultos contra as entidades sagradas do Islã, na qual esse semanário teve um papel preponderante no passado, combinada com a islamofobia, aumenta no Ocidente", denunciou.

Em 2006, o "Charlie Hebdo" publicou uma sequência de charges de Maomé, o que resultou em protestos entre os muçulmanos e ameaças de morte ao jornal.

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