O velho canto da tesoura

iG Minas Gerais |

A intenção aqui não é fazer defesa, mas, humildemente, tentar botar alguns pingos nos is, e a lápis. A condução da política econômica foi a tônica principal do debate presidencial e continuou a ser antes da virada do ano e nestes primeiros dias de 2015. As decisões de Dilma e também os discursos da oposição comprovam a tese de que campanha eleitoral é publicidade tão ficcionalmente pintada quanto comercial de margarina. Pois os senhores que Dilma pôs no comando de sua equipe econômica não esperaram as exéquias de 2014 para tocar os ajustes fiscais necessários: mais receita, menos despesa. Já da escolha dos nomes a seus planos duros, a oposição caiu de pau (e alguns petistas também): a presidente reeleita estaria pondo em curso o programa do adversário Aécio e de seu ex-provável ministro da Fazenda, Armínio Fraga. E se Dilma viesse a fazer de conta que a conjuntura permanecia cor-de-rosa e omitisse qualquer atitude de revisão? A oposição cairia de pau, nesse caso, repetindo o discurso da campanha. Agora, imaginemos que fosse Aécio o eleito em 26 de outubro. O que faria desde já? Ajustes na economia: mais receitas e menos despesas. Ora, não se poderia esperar outra coisa de qualquer sujeito com um pingo de juízo sentado na cadeira nº1 do Planalto. Imunes ao palavrório eleitoral, nós temos que reconhecer, primeiramente, que, em termos de necessidade de conjuntura, um lado ou o outro teria que aplicar o mesmo medicamento e, segundo, que a economia é quem dita as regras do jogo, não os jogadores. No ano passado, tivemos uma melhoria no ritmo de crescimento dos Estados Unidos, mas, no resto do mundo, o compasso foi de desaceleração, principalmente na Europa e inclusive na China. Por aqui, sofremos com seca e eleição das bravas. Convertendo esses episódios, toscamente tivemos, assim, dólares voltando para casa, desvalorizando o real, e queda na demanda mundial por produtos básicos, como minério e petróleo, que caíram bastante de preço. Domesticamente, a falta de chuva fez a maior parte dos produtos alimentícios ficar mais cara. Não obstante tanta adversidade somada, como era ano de eleição, como poderia o governo cortar gastos? Fosse o presidente o mais tucano dos tucanos, também não cortaria. No Executivo, gastar e fazer o gasto aparecer valem mais do que mil palavras. A conta está sendo ajustada é agora, no novo ano. A inflação fechou batendo no teto da meta, o que não é surpresa alguma, mas joga por terra a balela de que a escalada dos preços estava fora de controle. Se estivesse, o Copom não viria aumentando os juros básicos como tem feito. O fato é o seguinte: se a safra é boa, quem planta atribuiu só a si os méritos da colheita. Mas, se é ruim, o concorrente joga a culpa toda no vizinho. Política econômica é essencial, como estímulo, regulação e controle. Repito, contudo, que mais fortes são as forças do mercado. Cortar é preciso. Agora, é piada anunciar o slogan “Brasil: Pátria Educadora” e, uma semana depois, promover a tesourada mais funda no orçamento do MEC. Libera a bolsa da pós-graduação aí, Dilma!

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