Trajetórias compartilhadas

Publicação reúne cinco décadas de cartas trocadas entre Carlos Drummond de Andrade e o crítico Alceu Amoroso Lima

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Longevidade. 
Correspondências traduzem o amadurecimento de Drummond a partir da escrita para um de seus principais interlocutores
Rogério Reis / Tyba
Longevidade. Correspondências traduzem o amadurecimento de Drummond a partir da escrita para um de seus principais interlocutores

Foi ainda aos 26 anos, antes mesmo de publicar seu primeiro livro, que o jovem Carlos Drummond de Andrade começou a se corresponder com o já respeitado crítico literário Alceu Amoroso Lima. Além dos cumprimentos de praxe, Drummond aproveitou aquela primeira carta para externar certa inquietação sobre algumas crenças católicas que, nos anos 20, pesavam sobre o Modernismo literário emergente no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

Iniciada em 1929, a conversa entre os dois se estendeu por cinco décadas, encerrando-se somente em 1982, devido à morte de Alceu. Três décadas depois, tais palavras chegam ao público a partir do minucioso trabalho feito pelo pesquisador Leandro Garcia, que converteu as cartas no livro “Drummond & Alceu” e conduz nesta terça, às 19h30, na Casa Fiat, uma mesa redonda sobre a publicação. Além dele, participa da mesa Alceu Amoroso Lima Filho – primogênito do crítico literário e colaborador da pesquisa.

“Acredito que uma das principais forças do livro é justamente o caráter inédito dos textos. O Drummond sempre foi conhecido por sua timidez e pela aversão a entrevistas, mas nas cartas ele se escancara”, observa Garcia.

Responsável pela transcrição das 132 correspondências que compõem o corpo do livro, o pesquisador divide a obra em três momentos distintos. “Durante a primeira fase, que se estende até 1934, o que se tem é um conjunto de textos muito existencialistas, reunindo cartas que algumas vezes ultrapassam dez páginas. Esse é um período muito complicado para o Drummond, ainda afetado pela morte precoce de um filho e profundamente transtornado, como pessoa e como escritor”, resume o pesquisador, que associa a essa parte os mais belos textos contidos na publicação.

Compreendida entre 1934 e 1945, a segunda parte do livro apresenta uma outra face do escritor, que sai de Belo Horizonte rumo ao Rio de Janeiro e começa a trabalhar como assessor de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação.

“A partir de então, as comunicações se tornam mais institucionais e deixam clara toda a complexidade das relações que se estabelecem entre o Estado e o universo intelectual brasileiro. Em meio a um governo ditatorial e um contexto cultural que incluía vários intelectuais filiados ao Partido Comunista, Drummond acaba se tornando presidente de uma das várias comissões de censura que atuavam naquela época”, adianta o organizador, chamando atenção à grande reforma que atingiu o ensino superior brasileiro durante o mesmo período e, não por acaso, ganhou amplo espaço nas conversas entre os dois.

À terceira fase, por outro lado, o pesquisador associa um período de mais serenidade para Drummond e Alceu. Donos de carreiras consolidadas, os dois trocam impressões sobre os próprios trabalhos e compartilham homenagens cada vez mais frequentes. “Nessa fase de mais maturidade, percebemos uma sofisticação da linguagem, assim como algumas impressões sobre a condição de celebridade que ambos passam a desfrutar”, conta.

Pós-doutor em estudos literários pela PUC-Rio e professor de literatura brasileira da Universidade Católica de Petrópolis, Garcia defende a epistolografia – palavra que designa tanto a arte de escrever cartas quanto a ciência que as analisa – como um caminho para uma visão mais complexa da história e dos personagens que a constituem. Ainda para 2015, adianta Garcia, estão previstas compilações de correspondências trocadas entre o mesmo Alceu Amoroso Lima e dois outros ícones da cultura brasileira: Mário de Andrade e Frei Betto.

Trecho “Sou dos maus, dos piores católicos que há por aí. (...) Fiz mal, talvez, em confundir a religião com os seus ministros... Ou não é possível julgar aquela sem ser através destes?”, Carlos Drummond de Andrade

Agenda

O quê. Palestra “Drummond & Alceu”, com Leandro Garcia e Alceu Amoroso Lima Filho

Quando. Nesta terça, às 19h30

Onde. Casa Fiat de Cultura (praça da Liberdade, 10, Funcionários)

Quanto. Entrada gratuita

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