Magrelo itabirano

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Hélvio
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“Aquele magrelo duro de roer”, de Itabira, virou o poeta Carlos Drummond de Andrade. O filho caçula de Dona Julieta Augusta, além de escrever poemas de alta qualidade, foi um missivista contumaz. As correspondências com a mãe, particularmente, tinham, é claro, uma afetividade especial. Ele no Rio de Janeiro, ela ora Belo Horizonte, ora em Itabira. Uma seleção dessas cartas reunidas para a exposição “Quasepoema”, que está em cartaz só até o próximo domingo na Casa Fiat de Cultura, no circuito da praça da Liberdade, oferece um tom íntimo que permite entender melhor o homem Drummond e a relação deste com a obra literária que criou. As correspondências são principalmente das décadas de 1930 e 1940 e pertencem aos acervos do Memorial Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, e do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. Algumas são endereçadas também a outros parentes como o irmão Vivi (Flaviano). A autorreferência do poeta como Magrelo, uma espécie de apelido de infância familiar, citado por ele em pelo menos duas cartas da exposição, é apenas um dado pitoresco nas frases tombadas, escritas em caneta-tinteiro. Estão nessas missivas a constante preocupação com a saúde da mãe, a saudade permanente, as aflições e as etapas de vida do filho que certa hora anuncia que vai se casar com a senhorita Dolores; depois se torna pai, mas primeiro perde um menino, para um ano adiante, em 1928, ter Maria Julieta, “uma menina robusta”. A labuta no Ministério da Educação, no Rio, é exaustiva. “Reconheço que tenho me escravizado demais no trabalho de todo dia, mas apesar de tudo sua imagem continua afetuosamente presente em toda a minha vida”, declara ele a Dona Julieta em 1940. As notícias do escritor também estão presentes, como ele revela à mãe em novembro de 1941: “Entrei em combinação com a Livraria José Olympio para publicar em um só volume todas as minhas poesias (três livros em um). (...) Espero que até o princípio do ano que vem apareça a grande obra. Há nas páginas muita tolice, que a senhora perdoará, com o seu carinho e a sua indulgência maternas”. As cartas seguem a trajetória de vida da filha Maria Julieta, os anos escolares, a formação na faculdade, o casamento e mudança para a Argentina, o nascimento do primeiro neto, que deixa Drummond aflito para visitar Buenos Aires. Há também comentários sobre a Segunda Guerra, a falta de água no Rio de Janeiro, e também de gêneros como carne e manteiga. Mas a exposição com curadoria de Marconi Drummond e Fabíola Moulin não se resume às cartas. Tem vídeo com poetas e outros artistas lendo e comentando poemas de Drummond, fotografias de família, projeções das cartas, cronologia, e uma galeria em que é possível encostar em alto-falantes e ouvir Drummond de clamando seus versos. Conheça mais de perto o nosso poeta.

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