Uma voz, vários caminhos

Allan Dias Castro - Escritor, letrista e apresentador

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Eu digo que o poeta tem o privilégio de gritar ao mundo que existe em silêncio. E é exatamente assim que me sinto”
Raul Krebs / divulgação
“Eu digo que o poeta tem o privilégio de gritar ao mundo que existe em silêncio. E é exatamente assim que me sinto”

 

Ex-publicitário, Allan Castro mudou-se para o Rio de Janeiro para seguir a carreira como letrista. Além de ter tido êxito nesse caminho, criou e apresenta o programa “Dando as Letras”, exibido pelo canal Music Box Brasil. Atualmente, comemora o lançamento de seu primeiro livro, “O Zé Ninguém”, que conta com texto de abertura de Luis Fernando Verissimo.  

Você é um gaúcho, radicado no Rio de Janeiro. O que essa cidade “tem” que tanto atraí os escritores?

Pra mim, nada define melhor o Rio do que “purgatório da beleza e do caos”. É aí que entra a subjetividade da coisa. Esse limite é quase pessoal. Até quando tanta beleza suporta tanto caos? Essa pergunta talvez seja uma das que mais faço nesses cinco anos em que moro no Rio. As respostas variam muito, mas sempre acabam virando inspiração. Quando a beleza me toma os olhos, saem poemas do estilo do “A Minha Cidade Ideal”, que fiz homenageando Chico Buarque. Mas desse mesmo poema saiu a frase que é puro caos: “Na favela, morro é verbo”. Essa mistura e outras muitas perguntas sem resposta deve ser o que atrai tanta gente disposta a desvendar a cidade através da escrita. O que também me levou pro Rio foi a música. A vontade de conhecer pessoas que vivem de música e para a música. Queria mostrar minhas letras, fazer parcerias. De cara, já conheci o Bebeto, apresentei umas parcerias minhas com Thiago Corrêa. Ele ouviu, gostou e gravou. Simples assim. A partir daí, voltei pro Sul só pra buscar a mala.

Recentemente, você lançou seu primeiro livro, “Zé Ninguém”, composto de poesias e contos. “Zé-Ninguém” é minha estreia literária. É o que eu chamo de “dar o pulo”, por dois motivos: a decisão de lançar um livro não é fácil, ter conseguido finalizar o processo foi muito significativo pra mim. O segundo foi a apresentação feita pelo mestre Luis Fernando Verissimo. Deu um ar de sonho realizado para o projeto, que é quase um compilado de tudo que já escrevi, sem barreira de estilo ou formato. É um misto de frases, letras de música, poemas e contos. Muitas vezes a frase solta vai voltar no poema e um trecho desse poema vai inspirar ou voltar completo dentro de um conto. O livro tem esse diálogo. Muita gente fala que o livro é bem crítico. Eu costumo dizer que é autocrítico. Tem muito de mim ali, não é à toa que escrevi muitos textos em primeira pessoa. Pontua muitas fases da minha vida, de ter tomado a decisão de largar o emprego, mudar de cidade. Me arrependeria de não ter tentado dar esse “pulo”.

Como letrista, você tem músicas gravadas por Roberto Menescal e Bebeto, grandes nomes da música brasileira. Ambas em parcerias com outros compositores. Como é criar letras de música a quatro mãos?

O processo é sempre diferente. Tenho a sorte de ter muitos parceiros de fé, então varia bastante. Recebo muitas ideias do Thiago Corrêa, a gente troca muita ideia. Aí é questão de parar e montar a letra em cima disso. Um grande parceiro meu é o Moreno Morais, de Belo Horizonte, inclusive. É aquele cara que recebe a letra pronta e faz a mágica. Assim é também o Guilherme Gê, produtor do programa que tenho no Canal Music Box Brazil, o “Dando as Letras”. Ele recebe a letra pronta e faz acontecer. Estou agora compondo com uma cantora sensacional chamada Ana Lonardi, que tem ideias incríveis de letras e melodias. Tenho aprendido muito isso, de ouvir mais. Quando os mestres como os que você falou estão envolvidos, aí sim é o momento de escutar e aprender.

Você passou pelo curso de escritura criativa na Escola de Escritores de Barcelona, na Espanha. Como a escola contribuiu para sua formação como escritor?

Foi lá que destravei pra botar histórias mais longas no papel. Sempre prezei pelo poder de síntese na hora de escrever, habituado a apresentar a ideia nas primeiras estrofes e resumir tudo no refrão. Eu gosto muito de relembrar detalhes de histórias em rodas de amigos. Sou aquele cara do “lembra daquela...” (risos). Aprendi a criar essas histórias. Lá na escola de Barcelona, tive a base de muita coisa teórica, muitas maneiras de desenvolver algo sem necessariamente ter que esperar pela tal inspiração. Lá era produção. Foi dessa experiência que escrevi a seguinte frase: “É lendo muitas páginas que se chega à capa de um livro”. Virei muitas antes de escrever o meu, mas o fato é que sempre vai ser pouco. Leitura é um dos meus melhores vícios.

Como e por que surgiu a ideia de criar o programa “Dando as Letras”? Teria a ver com algum desejo seu de exercer o jornalismo?

Gosto muito de biografias. Autorizadas, ou não. Sou fissurado em saber como as músicas que ouço foram criadas, de onde veio a ideia. O “Dando as Letras” surgiu dessa curiosidade e também da minha vontade de apresentar minhas letras, fazer parcerias. Criar as nossas histórias particulares, mas, é claro, gravando tudo. Eu curto jornalismo e publicidade. Mas preciso ir além da notícia, do briefing, seja lá o que for que limite. Preciso botar minhas ideias e opiniões pra fora, sem alguém para aprovar ou reprovar.

O programa tem entre seus objetivos receber novos talentos da música brasileira. Como você analisa este nicho atualmente?

Sim, acho que a graça do programa está nesse encontro. Novos nomes provando que esse papo de que não se faz mais música boa é uma bobagem. Talvez não se divulgue tanto, mas isso é outra questão. O que não pode é dar espaço sempre para as mesmas pessoas, tem que haver a curiosidade, a busca de novos sons. Mas pra quem gosta de música essa procura é natural. A galera nova é muito agilizada, não dá pra ter mais a ilusão de que ter talento basta. Os caras compõem, produzem, gravam e divulgam. Ninguém está parado esperando por um milagre de alguém enxergar a sua banda e aí começar a trabalhar.

Para você, qual a diferença no processo de criação de uma poesia e de um conto?

Tanto a poesia quanto o conto são exercícios de liberdade pra mim. Não preciso me ater à métrica ou à melodia, por exemplo. A diferença está realmente no quanto você é capaz de “resolver” aquele assunto em mais ou menos linhas. E, claro, de como a história chega pra mim. Às vezes, tenho uma rima na cabeça, fatalmente me levará a um poema ou letra. Já o tema dessa rima pode ou não virar um conto. Mas depois dos comentários das pessoas sobre o livro, tenho me animado bem mais com os contos e histórias mais longas. Percebi que elas se identificaram com personagens, se enxergam no contexto. Eu escrevo, mas não me arrisco no violão, por exemplo. O fato de eu fazer apenas letras, seria muito limitador se eu focasse apenas em música. Essas diferentes formas de escrita talvez venham daí, dessa necessidade de ampliar as formas de chegar até as pessoas. Seja da forma que vier.

O que espera de sua carreira como escritor? Há algum ponto específico que almeja alcançar?

Eu digo que esse pulo foi o primeiro passo (risos). A gentileza das palavras do Luis Fernando Verissimo na apresentação do meu livro me fez perder o medo de, no próximo, tentar voar. Desejo alcançar o maior número de pessoas que minha escrita conseguir. É incrível poder conversar com as pessoas à distância. Eu digo que o poeta tem o privilégio de gritar ao mundo que existe em silêncio. E é exatamente assim que me sinto, encontrando pessoas, estando presente mesmo de longe. E isso é tudo que eu procuro, dar a minha escrita essa função de encontro.

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