O espectador como criador

Rede Plateia experimenta formas de mediação nas artes cênicas durante o 9º Verão Arte Contemporânea

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Fruição. Para Rita Gusmão, falta ao espectador atentar para a sua função de criador na etapa final do processo teatral.
Daniel Protzner/ Divulgação
Fruição. Para Rita Gusmão, falta ao espectador atentar para a sua função de criador na etapa final do processo teatral.

Entrou em ação no 9º Verão Arte Contemporânea a Plateia – Rede de Formação Artística, gestada por um grupo de professores, artistas e produtores dispostos a repensar as formas de aproximar o espectador da arte teatral.

A ideia surgiu nos encontros do Cafeto, durante o Feto – Festival Estudantil de Teatro, no ano passado, e está sendo posta em prática pela primeira vez na programação do VAC. Cada espetáculo teatral receberá um mediador convidado, incumbido de encontrar a maneira adequada de estimular as trocas entre plateia e palco de acordo com as especificidades da obra. Sem receitas prontas.

“A ideia não é fazer um bate-papo. Claro que o formato vai ser de conversa, mas a rede vem discutindo o conceito de mediação em arte, inclusive a partir das artes visuais e dos museus, onde isso existe com mais força, e tentando incorporar ao teatro”, conta um dos integrantes, Leonardo Lessa, coordenador do Galpão Cine Horto. O trabalho educativo pretende que o espectador possa ter uma experiência além da contemplação passiva.

“Não é uma rede de formação de público, é uma rede de formação artística”, explica a pesquisadora Rita Gusmão, que iniciou as mediações ontem, nas leitura do III Janela de Dramaturgia. A diferença? “A formação artística de alguma forma abrange uma sensibilidade que não é de simplesmente apreciar a obra de arte, mas é de reconhecer sua função social e psicológica. É mais filosófica do que simplesmente habituar as pessoas a frequentarem eventos artísticos”, diz, definindo como tem sido realizada a formação de público no país.

Segundo ela, “a tentativa é realmente de diferenciar um pouco essas duas ideias para trazer a atividade artística para o cotidiano das pessoas, como algo que faz parte da relação com o mundo, não mero entretenimento”.

Lessa explica que a rede tem discutido como escapar do risco de “virar papo de artista”, ou seja, uma conversa somente entre iniciados. “Tem a ver com a linguagem, com a necessidade de desenvolver de forma mais afetiva esse repertório com o espectador”, opina o gestor, considerando o estranhamento comum do cidadão em relação à arte contemporânea.

Para isso, o mediador parte das questões relevantes para o espetáculo sobre o qual fala. “Não é para explicar o espetáculo”, pondera Rita, “nosso objetivo é sensibilizar as pessoas para os movimentos estéticos, linguagens, elementos técnicos utilizados, questões técnicas que os atores desenvolveram para que seus corpos chegassem àquele lugar. Mostrar que existem em todos os eventos artísticos perspectivas além do entretenimento e que nos trazem possibilidades de construir nosso próprio raciocínio e emoções, maneiras outras de perceber o mundo e de se expressar”, diz Rita.

A pesquisadora considera o espectador alguém a quem cabe também um trabalho criativo, que chega no último momento do processo artístico. “É uma função de criação à qual ele talvez não esteja atento que também deve desenvolver, por motivos vários, como falta de estudo de arte na escola”, afirma.

Uma das curadoras do Verão Arte Contemporânea, Ione de Medeiros defende a ideia de “cultivo” para a arte. “Acho que esses projetos, como o Plateia, colocam as pessoas em contato direto e isso sensibiliza muito, é outro o diálogo, elimina a distância”, opina. “Acho essa distância importante, o cotidiano não é o lugar do artista, mas a conversa tende a promover uma aproximação. Na arte, os meandros são muito mais indiretos”, diz Ione.

A diretora do Grupo Oficcina Multimédia exemplifica: “Em geral não gosto de filmes de horror, mas ouvi na TV uma série de diretores do gênero falando de tantas referências que percebi que é ignorância minha. Você vence uma barreira. Quando uma pessoa vai para o palco, cada gesto, palavra e textura é muito elaborado e o público precisa saber”, opina.

Além do VAC, a rede Plateia planeja desenvolver ações semelhantes em outros eventos futuros, dando continuidade ao projeto.

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