Bem-vindo ao futuro do passado

Com a chegada de 2015, cinéfilos e fãs revisitam e colocam à prova o porvir sugerido em “De Volta para o Futuro – Parte II”

iG Minas Gerais | Daniel oliveira |

Em 1989, “De Volta para o Futuro – Parte II” imaginou 2015
ACIR GALVÃO/Editoria de arte/O TEMPO
Em 1989, “De Volta para o Futuro – Parte II” imaginou 2015

Quando Marty McFly (Michael J. Fox) chega ao 2015 de “De Volta para o Futuro – Parte II”, uma das primeiras coisas que ele vê é um robô gigante que é o posto da Texaco. Pouco depois, o protagonista se assusta quando o holograma 3D do anúncio de “Tubarão 19” tenta devorá-lo. E, mais tarde, sua mãe transforma um saquinho desidratado em uma pizza tamanho família no forno hidratador Black & Decker. E para um bom entendedor, isso não é um mero indicador de que o filme ganhou muito dinheiro com merchandising.

“O futuro de toda boa ficção científica reporta bem mais do presente em que ela foi feita”, pontifica o crítico Gabriel Carneiro. E num momento em que os principais estúdios de Hollywood acabavam de ser adquiridos por grandes conglomerados, reflexo neoliberal do que acontecia em todo o mercado, o consumismo yuppie chegava a níveis estratosféricos nos EUA e a publicidade de massa invadia todos os aspectos do cotidiano, a grande inquietação dos anos 80 era saber onde isso tudo ia dar.

“O filme não explora muito a questão sociopolítica, é mais pelo econômico mesmo”, avalia o crítico Renato Silveira. É por isso que, com a chegada do “futuro” da trilogia, mais do que listar quais os acertos e os erros das previsões do longa de Robert Zemeckis (o que você confere na arte), é importante entender que o 2015 da produção é, na verdade, um 1985 “with lasers” – com um design e um figurino new rave que podem ser encontrados em um show de Lady Gaga, e um café e uma loja retrô que anteciparam as tantas festas Ploc e Almanaques dos anos 80 atuais.

E é por ser essa versão utilitarista e funcional, mais doméstica, do futuro que “De Volta” chegou bem mais perto do alvo que seus colegas apocalípticos e megalômanos dos anos 80, como “Blade Runner – O Caçador de Androides” e “O Vingador do Futuro”. “Apesar de ter essa parte no futuro, continua sendo um filme sobre o passado, a ideia de como ele, e uma mudança nele, pode afetar toda sua história”, analisa Silveira.

Nostalgia. Mais do que um reflexo de sua época, porém, o 2015 do longa é uma continuação temática do filme original: o medo da vida adulta e classe média. Assim como em todos os filmes dessa fase da carreira de Steven Spielberg (produtor com grande poder criativo na série, que quase chegou a dirigí-la), “De Volta para o Futuro” traz uma idealização da infância e da juventude, em oposição à vida adulta plástica, frustrante e sem espontaneidade. No longa original, isso se refletia na personagem da mãe de Marty, Lorraine (Lea Thompson), que se interessa (incestuosamente) pelo filho rebelde, em detrimento da opção “careta” e segura do pai dele, George (Crispin Glover).

Na parte II, isso acontece com o próprio casal Marty (que sonha em ser um rockstar) e Jennifer (Elizabeth Shue), que se deparam com seu futuro e descobrem que se tornaram versões igualmente frustrantes de seus pais. “É o medo de não ver os sonhos da infância serem contemplados, de cair no lugar comum, enquanto as aventuras juvenis são fantásticas e extraordinárias, antes de você ser corrompido pelo mundo”, analisa Carneiro.

É por isso que o futuro “matinê” do filme fascinou tanto as crianças e adolescentes dos anos 80. “Na época, a parte II era a de que eu mais gostava por ter esse futuro. Era o máximo ver o skate voador, carro voando, tênis que amarra sozinho, forno que hidratava pizza”, lembra Silveira. A nostalgia por essa infância já levou mais de 90 mil pessoas a participarem de um evento criado no Facebook para receber McFly no dia 21 de outubro, às 16h29. “Minhas cenas favoritas eram a do hoverboard (o skate voador) e o café, com um robô de inteligência artificial atendendo, e as crianças rindo do videogame que precisa das mãos”, reforça Diogo Brasil, um dos cadastrados no evento, que revê a saga todo ano e coordena o site de cultura nerd Otaku Company (www.otakucompany.com.br).

Para o professor Marcelo Franco Porto, coordenador do departamento de Engenharia de Transporte e Geotecnia da UFMG, cujo trabalho inclui acompanhar essas inovações tecnológicas, os acertos do filme não são por acaso. “Todo bom diretor de cinema vai procurar o que tem de novo na ciência e se basear naquilo para que as pessoas vejam o que se propõe como uma projeção, e não algo surreal”, argumenta. Mas, por mais que “De Volta” tenha acertado com seu televisor multifuncional, videoligações e comandos por voz, ele não antecipou a grande cola que reuniu isso tudo: a internet. “Ele chegou mais perto na questão da comunicação, mas, hoje em dia, em quesitos como a videoconferência, estamos até mais avançados que isso”, reflete Silveira.

Na verdade, nenhuma grande obra da ficção científica chegou a imaginar o que a grande rede representa hoje no mundo. “O mais próximo foi o Orwell em ‘1984’, que antecipou essa ideia de um grande irmão observando todos, e tudo que você fizer vai parar em um lugar que todo mundo vai ver”, opina Brasil.

Ironicamente, como contraponto ao realismo da saga, Marcelo Porto cita os casos em que longas começam a falar em viagem no tempo, como o recente “Interestelar”, ou um mundo inteiro reproduzido no computador, como “Matrix”. “Mas ficção é isso. Se ninguém mais extrapolar, nós não criamos nada de novo. Precisamos de mentes inovadoras para avançar nosso conhecimento”, filosofa.

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