Cada vez melhores, como vinho

Atores veteranos refletem sobre oferta de trabalho e qualidade dos personagens que surgem

iG Minas Gerais | luana borges |

Afonso Carlos/Czn
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Certas coisas melhoram com o tempo. Para atores de TV, por exemplo, encarnar diferentes tipos de papéis se torna mais natural com a engorda do currículo. Mas são poucos os veteranos que conseguem personagens relevantes dentro de uma trama. Muitos deles reclamam da pouca oferta de trabalhos interessantes a partir dos 60 anos. Aqueles que construíram uma carreira voltada para protagonistas, geralmente são os que conseguem um lugar no Olimpo. E ainda são vistos como indispensáveis para muitos autores. Atualmente no ar em “Boogie Oogie”, Betty Faria estava longe das novelas desde 2012, quando participou de “Avenida Brasil”, e é do time dos medalhões. “Não vou sair de casa para fazer qualquer coisa. Adoro os autores, mas, quando vejo que será uma personagem sem qualquer função, agradeço e espero o próximo convite. Aí, de vez em quando, aparecem oportunidades bem divertidas, como a Pilar de ‘Avenida Brasil’ e agora a Madalena, mulheres fortes e destemidas. Adoro esses tipos”, salienta.

Tornar-se mais criterioso com o passar do tempo, aliás, é comum a muitos atores veteranos. Aos 71 anos – destes, 50 só de carreira na TV –, Marília Pêra é uma que, assumidamente, só aceita se envolver em um projeto se for para “brilhar”. Justamente por ser contratada por obra pela Globo, ela não tem a obrigação de trabalhar sempre que requisitada. E ainda prefere participar das obras de Miguel Falabella, pela garantia de ganhar papéis interessantes. “Não sinto vontade de interpretar coadjuvantes e ele me dá personagens que são coerentes com a carreira que venho construindo. Nos projetos de Miguel, recebo o tratamento que acho devido, existe um cuidado maior nos bastidores e sempre sei que o texto dará chances para todos os atores que estão no estúdio”, avalia ela, que vive Darlene em “Pé na Cova”. Para Falabella, contar com Marília no elenco de seus projetos, assim como outros veteranos renomados, é sinônimo de luxo. “Não existe dramaturgia séria sem a força dos grandes intérpretes. É por isso que sempre faço questão de ter ao meu lado gente do porte de Marília Pêra, Arlete Salles, Cláudia Jimenez, Zezé Polessa, Jacqueline Laurence e outras mulheres maravilhosas”, orgulha-se.

Tiago Santiago, autor da série “Na Mira do Crime”, do FX, costuma escalar atores mais velhos e com uma carreira extensa para suas produções. Para citar alguns exemplos, em “A Escrava Isaura”, contou com Rubens de Falco, Norma Blum, Miriam Mehler e Everton de Castro no elenco; “Prova de Amor” teve Rogério Fróes, Ittala Nandi, Esther Góes e Paulo Figueiredo; e na trilogia de “Os Mutantes”, o autor convidou Walmor Chagas, Sebastião Vasconcellos, Regina Dourado e José Dumont, entre outros, para participar. “Atores renomados trazem prestígio e credibilidade”, acredita. Já Marcílio Moraes, que assina “Plano Alto”, da Record, reconhece a carência de boas oportunidades para veteranos. “Um personagem de 80 anos, por exemplo, precisa ter uma densidade que as novelas, que dominam nossa dramaturgia, não comportam, em sua maioria. E aí se vê o quadro lamentável de grandes atores parados ou relegados”, avalia.

Na contramão de atores mais velhos que se queixam da falta de bons personagens, Fernanda Montenegro protagonizou, recentemente, a série “Doce de Mãe”. Antes disso, interpretou a Candinha do remake de “Saramandaia”, em 2013. E, apesar de ser seletiva com os trabalhos com os quais se envolve, aparece na TV com certa constância. O que encara como um privilégio. “Sei que já estou muito velha e fico feliz de ainda ser chamada para trabalhar com a mesma frequência de antes. Algumas pessoas ficam chateadas, mas não posso dizer sim a tudo. Vou escolhendo com quem quero trabalhar e como será esse processo”, explica ela, que volta ao ar em “Babilônia”, próxima novela das 21h.

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