Guerra, sombra e champagne

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“As roupas e os objetos falam por nós muito mais do que possamos imaginar”
OSCAR AUGUSTO/DIVULGAÇÃO
“As roupas e os objetos falam por nós muito mais do que possamos imaginar”

Marta Guerra é linda e competente. Sua formação é em pedagogia e dança. A atual praia é a moda - tudo, “um eterno aprendizado” - como gestora no Centro de Referência da Moda (CRM). É lá, com paixão e criatividade que ela exerce um trabalho que, além de não sair de moda, é um dos motores da Cultura e da Economia em Minas. Fala bela!

Marta, o que é o CRM?

Este é um projeto inédito e ousado, concebido pelo Presidente da Fundação Municipal de Cultura Leônidas Oliveira, em conjunto com a curadora Marília Salgado e largamente apoiado pelo prefeito Marcio Lacerda. È a primeira vez que Belo Horizonte inclui em sua política pública, um espaço de referência no segmento da Moda. Inicialmente este projeto causou polêmica por inserir a moda dentro de um programa de cultura. Perguntas como: Moda é Cultura e Cultura é Moda? Ficaram rondando o mercado. O mundo cultural no Brasil tem muita dificuldade de inserir a palavra mercado. Ela gera uma sensação de futilidade. Bobagem!  A Moda é Cultura e é também um produto. Um produto importante e criativo que gera renda, emprego; fundamentais em nossa economia sustentável. Esquecemos que a Cultura também tem que sobreviver. Então, preconceitos a parte, tais questionamentos foram válidos, pois serviram para esclarecer a todos o quão importante é a Moda na forma de expressar uma época, um modo de vida, um modo de sobrevivência.

Desde 2006 que a Moda faz parte do programa de cultura do Minc. Por sua notoriedade na área, Belo Horizonte tem um papel importante neste contexto. Portanto tornou-se imperativo a criação de um espaço público onde poderíamos dinamizar e potencializar todos os talentos que surgem diariamente, oriundos das boas escolas de moda que temos aqui.  È absolutamente primordial a valorização de nossos profissionais que lutam há anos para elevar Minas aos patamares mais altos da produção nacional e internacional, que, infelizmente, por vezes são reconhecidos mundo afora e tão pouco lembrados aqui. Belo Horizonte tem uma rica historia na Moda que merece ser contada. Talvez muitos não saibam, mas Belo Horizonte era chamada de “Cidade das Costureiras”.

O Centro de Referência da Moda pretende alcançar sua função pública como fonte de inspiração, fruição do conhecimento para aqueles que buscam esse mercado. Estamos abrigados em um dos prédios mais belos da cidade; o famoso Castelinho da rua da Bahia em seu estilo “gótico tardio”que foi concebido para ser o Conselho Deliberativo do Município e posteriormente Câmara Municipal. Ao longo de seus 100 anos ocorreram várias outras ocupações. Em 1997 passou a ser o Centro de Cultura de Belo Horizonte. Portanto, muitas histórias passaram por aqui. O Centro continua um espaço onde a cultura acontece também em seus diversos segmentos. Temos um pequeno teatro onde várias produções artísticas são apresentadas, além de palestras oficinas e outros. Isso sem contar com a nossa bela biblioteca que possui acervo de mais de cinco mil livros e cujo acervo estamos ampliando com novos títulos. Recebemos também inúmeras escolas através de nosso projeto educativo e os projetos de acessibilidade estarão sendo ampliados em 2015. O projeto tem apenas dois anos, mas já realizamos varias exposições. A primeira, “Fala das Roupas”, curadoria de Marília Salgado; na sequencia, “Tramas e Bordados” com a curadoria do reconhecido estilista Renato Loureiro; a exposição do belíssimo acervo de bordados de Maria do Carmo Guimarães em “Bordadas Memórias de Sutis Lembranças” e encerramos o ano com a exposição Moda e Literatura por nosso querido Ronaldo Fraga e sua coleção inspirada nas obras de Drummond e Guimarães Rosa. Enfim, mais um espaço cultural diversificado em nossa cidade com entrada gratuita a toda população e seus visitantes.

Você é naturalmente elegante, sempre foi, isso ajuda na função de gestora do CRM?

Obrigada. Que bom que você me e assim. De fato busco a minha elegância na maneira como trabalho com minha equipe, como recebo o público e como estamos abertos a todos os bons projetos que. Então acho que é o inverso, se há elegância, ela é consequência e não causa.  

Uma brincadeira, antes da seriedade. O que achou do polêmico "modelito" da presidente Dilma na posse?

Estamos num momento muito triste. A liberdade de rir do cotidiano é um direito de todos e, isso cai facilmente nas redes sociais. Então, a lente de aumento multiplica comentários de todas as espécies. Particularmente, prefiro que as críticas fiquem no campo das ideias. É mais ético, mais produtivo. Talvez a presidente não esteja em seu momento unânime de aceitação devido a tantas turbulências pelo o que o país passa. As pessoas estão com sede de causar polêmicas. Não vejo esse tipo de deboche com Ângela Merkel que tem o mesmo perfil e significado. Mas é preciso lembrar que ela é uma senhora, como tantas outras e ocupa o maior posto do nosso país. Esta legitimamente eleita e merece o respeito pela função que exerce. Ela não é uma atriz de Hollywood, nem uma celebridade de tapete vermelho. Ela não estava de decote, saia curta ou transparências. Isso sim mereceria duras críticas. Nem feia, nem bonita apenas adequada.  Fazer oposição deveria ser algo mais sério, menos raso. É a minha opinião e as pessoas podem concordar ou não. Liberdade é isso, um direito incondicional.  É o preço da democracia e, é muito bom que seja assim. Ficar dando muita importância para comentários dessa natureza também é opcional. O filtro das informações recebidas é algo absolutamente pessoal. Podemos escolher o que queremos ler, ver e ouvir. Definitivamente, não me interessa a moda quando ela começa a dar importância à cor da calcinha da Paris Hilton.  

Moda como Cultura...

Definir Arte e Cultura é uma discussão sem fim. Mas seguindo um raciocínio mais simplista a Cultura nada mais é do que a expressão de um povo em suas diversas formas de vida. É o modo como as pessoas de lugares mais distantes, fazem as mesmas coisas só que de formas diferentes. Isso é algo que a internet por mais multiplicadora e universal que seja não conseguiu robotizar. As pessoas e os lugares têm seu próprio estilo, suas próprias características.  Quando vemos uma revista antiga, uma fotografia, filmes ou novelas, identificamos épocas pessoas e lugares sem a necessidade de legenda.  Entendemos o contexto da época por simplesmente olhar. A Moda e modos estão em nossa memória afetiva e cognitiva. As roupas e objetos falam por nós muito mais do que possamos imaginar.

E a moda como parte da Economia, em Minas?

Minas exerce um papel fundamental. Somos o segundo produtor de Moda no país. Feiras como Minas Trend, promovida pela Fiemg, estimulam o crescimento e organizam o setor. È direcionada a lojistas de todo Brasil e compradores internacionais ampliando nossa visibilidade no cenário nacional. É considerada a segunda maior feira do país e exerce uma influência em todas as tendências lançadas. Para Belo Horizonte é um importante setor na criação de empregos. Entre 2010 e 2013 foram abertas mais de 600 empresas na área de vestuário, isso sem contar o turismo de negócios que o segmento traz. Em breve será inaugurado o Fashion City Brasil – complexo formado por shopping atacadista de moda, hotel e centro de convenções em Pedro Leopoldo, na Grande Belo Horizonte. Mais um ganho para a Moda em Minas.

O Brasil já encara a Moda como uma mina de ouro, como deveria fazer com o Turismo, por exemplo?

O Brasil é o quinto maior produtor de produtos de fibras e filamentos e contribui com 2,95 da produção mundial. Somos o segundo maior produtor de denin (jeans), o terceiro maior produtor de malha; além de sermos auto suficientes na produção de algodão.  Acho que não aproveitamos um terço do nosso potencial.  É um mercado riquíssimo. O Brasil não precisa viver de cópias chinesas.  Mas infelizmente, nossos tributos são altíssimos e comprar a roupa importada, mesmo com o dólar nas alturas, às vezes é mais barato. Com isso não valorizamos nossa cadeia de produção. Não podemos esquecer também que essa moda que chega aqui tão barata muitas vezes é oriunda do trabalho escravo e, isso deveria ser biocotado por todos nós consumidores. É uma questão de cidadania.  

O que falta em Minas e no Brasil para que a Moda se torne assunto sério, um negócio?

Ela já é encarada com muita seriedade, pois os números dizem por si só. O incentivo de associações como Fiemg, Sesc (com seus cursos profissionalizantes), além das faculdades de moda super respeitadas em todo Brasil são importantíssimos. Porém, acho que falta sinergia entre as instituições na prática da sustentabilidade, na qualificação da mão de obra, nos incentivos fiscais, na distribuição, diversificação e comercialização de produtos. É necessário o desenvolvimento de arranjo institucional entre as empresas, indústrias e administração pública. O lado bom é que criatividade, design e capacidade de diferencialização não nos falta. È arregaçar as mangas e acreditar em nosso potencial  

Quais teus planos pessoais e profissionais para este temido 2015?

A ordem geral é economizar. Cortar custos é só o que se fala. Mas as dificuldades podem nos trazer bons frutos.  Brasileiro aprendeu a viver na crise a seguir trabalhando apesar de...  Acho que vamos superar com dignidade e trabalho. Não temos outra escolha. A Fundação Municipal de Cultura segue com todos seus projetos e vai continuar a fazer a diferença na vida cultural de Belo Horizonte. Estamos com edital de ocupação em curso e novos talentos terão a chance de levar seus projetos para o Centro. Nossa meta é um espaço cada vez mais dinâmico que não fique esperando as pessoas entrarem. Nós vamos até elas! No segundo semestre teremos a exposição “Grupo Mineiro # A vanguarda dos anos 80”. A campanha pela ética na moda e a luta contra o trabalho escravo são nossos desafios em 2015. E o já citadoFashion City Brasil. São minhas bandeiras pessoal e profissional.

O que nunca deveria sair de moda no mundo?

Democracia.

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