Entrando numa fria

iG Minas Gerais |

“The cold never bothered me anyway …” (“Let it Go” – “Frozen”)
acir galvao
“The cold never bothered me anyway …” (“Let it Go” – “Frozen”)

No filme “Frozen”, a personagem Elsa tem o poder de transformar o que quiser em gelo. No começo, tudo é festa, afinal, ela pode fazer um dia de verão virar inverno apenas para que ela e a irmã brinquem na neve. Mas, de repente, ela descobre que seu poder é perigoso e começa a desejar nunca mais ter que ver gelo na vida. No mês passado, passei por uma situação que fez com que eu me identificasse um pouco com Elsa. Fui passar uns dias de férias em Nova York. Antes de ir, conferi a previsão do tempo e descobri que tinha a possibilidade de pegar um ou dois dias de neve. Fiquei superanimada, enchi a mala de roupas de frio e comecei a torcer para a meteorologia estar certa. E dessa vez ela acertou! No começo era só o frio. Apaixonada como sou pelo inverno, vesti luvas, cachecol, botas e fui pra rua, para sentir na pele a estação. No começo, achei tudo maravilhoso. Saudade nenhuma do calor que estava fazendo em BH. Poucos dias depois, veio o vento. Até aí tudo bem, apesar de ele insistir em embrenhar por debaixo da roupa mesmo que eu colocasse a blusa pra dentro da calça, a luva por cima da blusa, meia-calça, segunda pele... O vento simplesmente conseguia um jeito de entrar. Mas no dia seguinte percebi que eu tinha reclamado de barriga cheia, porque a chuva também chegou. E então concluí que não é de todo tipo de frio que eu gosto... Frio molhado não é nada divertido. Visualize a situação: Você em plena Times Square. Louca para desfilar seus sobretudos e botas que só pode usar quando viaja para um país frio. Na imaginação, andaria elegantemente olhando as vitrines e os letreiros, mas a realidade se mostrou bem parecida com aquela cena do começo do filme “Mary Poppins”, quando as babás são levadas pelas sombrinhas! O vento era tanto que a maior preocupação nem era não me molhar, mas sim tentar manter a sombrinha intacta, sem que ela virasse pelo avesso. Mentira. Manter-me seca também era uma grande apreensão, porque em segundos aquela mistura de vento, chuva e frio deixou a minha roupa completamente gelada e fez com que eu começasse a sonhar com o aquecedor do quarto do hotel. E foi pra lá mesmo que eu fui e só saí depois que a chuva deu uma trégua. Mas, antes, coloquei mais umas quatro blusas de lã, por garantia. No dia seguinte, a tão esperada neve deu as caras. Foi quando eu me lembrei de outro caso que passei... Alguns anos atrás, viajei pelo Chile de carro com o meu namorado. Acabamos descobrindo um lugar perfeito no meio do nada: Pucón. Uma cidadezinha charmosa, que tem várias lojinhas, restaurantes, um lago, um vulcão e uma estação de esqui. Alguns dias antes, nós tínhamos visitado o Valle Nevado, então fiquei toda animada, pensando que aquela estação seria parecida, afinal, eu achava que esquiar era sempre a mesma coisa, certo? Eu não poderia estar mais errada. Primeiro porque no Valle Nevado você estaciona o carro a poucos centímetros da neve. Já em Pucón, é preciso pegar um skylift, que é uma espécie de teleférico aberto, por uns 15 minutos até chegar ao alto da cordilheira. Ou seja, já chegamos lá em cima congelando. E nem de longe aquela estação tinha a estrutura do Valle Nevado, com restaurantes e hotéis. Na estação de esqui de Pucón, existia apenas um café, que por algum motivo ficava com as janelas abertas. Ou seja, se a intenção era me aquecer, eu podia esquecer. Mas era a única alternativa, então fiquei lá por horas, tremendo, enquanto esperava meu namorado esquiar, até cansar... E ele demorou muito, porque fomos descer já na hora de fechar. Ele preferiu descer esquiando, mas eu – que encerrei minha carreira de esquiadora depois de um dia tentando me equilibrar (sem sucesso) em cima de um esqui – falei que ia usar novamente o skylift. Foi nessa hora que eu percebi que lágrimas também congelam. Estava nevando muito. E ventando. E chovendo. E o par de luvas de neve que eu aluguei, que supostamente continha isolamento térmico, não serviu pra nada! À medida que eu usava as mãos para proteger o rosto das lascas de neve, as luvas iam encharcando, fazendo com que até meus ossos doessem. Cheguei lá embaixo pensando que estava com gangrena nas mãos e jurando que eu nunca mais iria querer ver um centímetro sequer de neve na vida. Como viram no começo, a minha promessa não durou muito tempo... Assim que vi a neve pela janela, saí dançando pela ruas de NY, olhando para a neve caindo enquanto cantava “Do You Want to Build a Snowman...”. Recordei isso tudo porque ontem minha amiga postou uma foto reclamando do frio que ela estava passando na Escócia, onde a sensação térmica era de -20°C. Mesmo com todas essas lembranças, fiquei desejando estar lá. Acho que o calor que está fazendo já derreteu da minha memória dessas situações em que entrei numa fria... Porque nesse momento, mesmo com o ar-condicionado no máximo, eu só desejaria ter os poderes da Elsa de “Frozen” e transformar o quarto em uma enorme geladeira. Pena que não posso cantar que o frio nunca me incomodou...

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