A superficialidade de uma geração vista de viés

Na opinião da diretora, a superficialidade de que a peça trata é geracional

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

No espaço gourmet à beira da piscina, a espera pelo fim do mundo
Guto Muniz/www.focoincena.com.br
No espaço gourmet à beira da piscina, a espera pelo fim do mundo

O modo de trabalho do Teatro Invertido mudou nas duas últimas montagens com a entrada de diretoras convidadas – primeiro Grace Passô e, agora, Yara de Novaes e Mônica Ribeiro – e a opção por textos pré-existentes. “Mais Invertido, impossível”, diz o ator Leonardo Lessa, defendendo a coerência de um grupo de pesquisa não se repetir, mas reinventar-se.

Para os atores do grupo, o engajamento no processo criativo passou por um período de leituras, discussões e estudos para que se afetassem realmente pelas questões prementes na peça. A obra de Zygmunt Bauman e filmes de “Interestelar” e “Gravidade” a “Melancolia”, de Lars von Trier, e o argentino “Relatos Selvagens” entraram em pauta.

Durante os ensaios, a dupla direção de Yara de Novaes e Mônica Ribeiro funcionou pela soma de características das duas artistas, sem perder a dimensão global do espetáculo. “É engraçado porque são opostos complementares. Yara é um primor na direção de atores e no trabalho com o texto, e Mônica faz o trabalho corporal, de fisicalizar a intenção, traz para o corpo, para a ação”, diz Lessa.

A união entre o Invertido e Yara contou com o impulso de Grace Passô, que os havia dirigido respectivamente em “Os Ancestrais” e “Contrações”. “Ela dizia que achava interessante eles trabalharem comigo para terem uma aproximação maior do texto teatral, da palavra que se torna gesto, da ação que é palavra”, conta Yara. “Meu trabalho normalmente tem foco no ator, mas em nenhum momento ele é um elemento dissociado de uma cena. A presença dele é sublinhada por todos os outros elementos”, diz.

A diretora investiu na criação de uma “realidade teatral”, atravessada pela realidade cotidiana, sem confundir-se com esta. No processo criativo, as referências serviram de guia, mas o trabalho determinou seus próprios códigos e leis. “Mais do que tudo, a gente parte de uma ideia de que aquele momento que eles estão vivendo é um fragmento, e conseguimos algumas verticalizações no que diz respeito à condição humana de cada um e coletiva. Tudo se mistura, desde as coisas mais frívolas até o medo do espectro que está acossando todos eles”, diz Yara.

Na opinião da diretora, a superficialidade de que a peça trata é geracional. “É muito própria do nosso tempo, em que as pessoas discutem tudo, têm uma tendência generalista de comentário e reflexão do mundo”, analisa. “Nessa camada pouco profunda, as coisas acontecem profundamente, mas a profundidade não é reconhecida nem pela própria circunstância”, explica Yara.

Desequilíbrio. O cenário, desenhado por Ed Andrade, é um tablado suspenso e reclinado. Além disso, a rampa ocupa uma posição enviesada em relação aos espectadores, oferecendo uma perspectiva peculiar – “até meio vertiginosa”, diz Lessa. “Tem um desequilíbrio do espaço, como se alguma coisa tivesse acontecido e o tirado do prumo”, conta Yara. “Toda encenação vai trabalhar nessa questão do que houve e do que pode haver”, sintetiza a diretora.

Agenda

O quê. “Noturno”, do Teatro Invertido

Quando. Estreia neste sábado, às 21h. Quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Até 18/01

Onde. Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras, 3229-2979)

Quanto. R$ 16 (inteira)

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