O ocaso dos privilegiados

Invertido estreia neste sábado “Noturno”, dirigido por Yara de Novaes e Mônica Ribeiro, no Verão Arte Contemporânea

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Grupo. Kelly Crifer, Leonardo Lessa, Dimitrius Possidônio, Rita Maia e Robson Vieira em cena de “Noturno”.
Guto Muniz/www.focoincena.com.br
Grupo. Kelly Crifer, Leonardo Lessa, Dimitrius Possidônio, Rita Maia e Robson Vieira em cena de “Noturno”.

Um churrasco à beira da piscina, conversas triviais enquanto o mundo ruma para o fim. A situação está armada para os conflitos sociais e existenciais fluírem por baixo da superfície de “Noturno”, espetáculo encenado pelo grupo Teatro Invertido, sob a direção dupla de Yara de Novaes e Mônica Ribeiro. A estreia será neste sábado, às 21h, no Oi Futuro, abrindo o 9º Verão Arte Contemporânea.  

Sara Pinheiro escreveu o texto pensando justamente no grupo de atores, ciente de que buscavam uma obra da nova geração de dramaturgos de Belo Horizonte para sua próxima montagem. Autora também de “Sin Título”, montado pela Cia. do Chá, desta vez ela se inspirou na piscina de água parada e lodosa de “O Pântano”, com a qual a cineasta argentina Lucrécia Martel materializa visualmente a degradação de um núcleo familiar.

Em “Noturno”, o local recebe um grupo de amigos – nem tão íntimos assim – de classe média-alta, às voltas com a iminência da perda do seu estilo de vida. “Eles estão vivendo um período de acuamento. Os recursos naturais estão se esgotando – como a água –, e eles sofrem a perda de alguns privilégios”, comenta o ator Leonardo Lessa. A possibilidade de salvamento cogitada seria por meio da tecnologia, só acessível a quem tiver poder aquisitivo.

Lessa conta que a peça interessou ao Invertido pela conexão com o momento atual de transformação da divisão de classes no Brasil, depois de uma série de espetáculos (“Os Ancestrais” e “Proibido Retornar”, entre eles) que aderiam ao ponto de vista das classes menos favorecidas. “A gente vê que a elite se sente muito ameaçada pela mobilidade social dos últimos anos, com a classe trabalhadora ascendendo e os privilégios sendo revistos”, diz o ator. Como exemplo, recorda o incômodo causado pelo acesso de pessoas pobres a universidades e aeroportos e pelos direitos conquistados por empregadas domésticas.

“Essa elite começa a ter que conviver com diferenças de classe e formação cultural, e isso cria um revanchismo, um efeito de revolta. No ano passado, isso se acirrou numa disputa pela manutenção de status. É um pouco essa derrocada do capitalismo, que fica cada vez mais cruel para se sustentar. E as distorções insustentáveis acabam aparecendo com força”, analisa Lessa. “Isso está pincelado de forma poetizada, como um fundo ideológico”, conta o ator.

É pela superficialidade dos personagens que a peça tangencia o tema. Contudo, os criadores cuidaram para não fazer um julgamento unilateral, tentando conferir complexidade social e existencial à obra. Esse esforço passou pela discussão sobre seus próprios privilégios, de modo a não apenas apontar o dedo para o outro, mas olhar para uma sociedade da qual fazem parte.

“A Mônica e a Yara nos provocaram o tempo todo a encontrar no nosso modo de vida, nos nossos grupinhos de artistas, o que também tem de alienações. Também estamos interessados em manter alguns confortos e conquistas. Por isso, essa discussão é mais próxima da gente. E a Sara nos falou para não termos uma visão caricata desses personagens, para criar alguma identificação com os espectadores”, diz Lessa.

“Mudar um hábito é muito difícil”, comenta Sara. De fato, um dos maiores obstáculos de movimentos por igualdade de direitos é que os grupos historicamente favorecidos percebam seus privilégios. “Às vezes, até conseguem ter uma reflexão sobre eles, mas, na prática, é mais difícil mudar isso, não ter apego quando está ruindo”, diz a dramaturga.

Emocional. Junto com a discussão social, a trama apresenta questões mais existenciais, relativas à própria continuidade da espécie humana. Uma das personagens, por exemplo, quer intensamente ser mãe e gera um debate sobre a decisão de colocar uma criança no mundo para logo morrer. “A Sara tenta aproximar esse fim do aspecto mais afetivo e emocional”, diz Lessa.

Trecho Pilar: Fique à vontade. A piscina é toda sua! Valéria: Sozinha? Pilar: Eu entro daqui a pouco. Valéria: Prefiro conservar o biquíni. Pilar: Não se preocupe. A água é limpa. Júlio: Vai me dizer que é água fervida? Pilar: Não. A água é antiga. Jorge: Tem dois anos que não trocamos a água da piscina. Valéria: Pode ser muito arriscado... Pilar: Ainda nem se ouvia falar em contaminação. Jorge: E sempre colocamos muito, muito cloro. Valéria: Muito cloro acaba com o biquíni. Pilar: Posso te emprestar outro. Valéria: Acaba com o cabelo também! Melhor não. “Noturno”, de Sara Pinheiro

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