Cinco anos de praia

Evento que surgiu em 2010 se consolida cada vez mais como espaço de encontro e manifestação política; neste sábado (10), participantes prometem voltar a ocupar a Praça da Estação

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Mar de BH - Praia é nova forma de fazer política, segundo a professora da UFMG Natasha Rena
Tamás Bodolay/Divulgação
Mar de BH - Praia é nova forma de fazer política, segundo a professora da UFMG Natasha Rena

Manhã de 16 de janeiro de 2010. Depois de ter virado a noite numa boate da Savassi, o produtor cultural Leo Santiago, 32, decidiu ir direto para a praça da Estação, na região central de Belo Horizonte. Dias antes, tinha recebido, por e-mail, um convite para um evento de nome curioso para uma cidade que não é banhada pelo mar: Praia da Estação.

Santiago foi um dos primeiros a chegar à praça. Dias depois, o produtor cultural registraria na internet o que aconteceu naquele evento. “Aos poucos mais gente chegou, carregando suas cadeiras e sombrinhas de praia. Estenderam suas toalhas no chão da praça, tiraram os shorts, as camisas e se cobriram de protetor solar. Um grupo começou a jogar peteca; outro, frescobol. Alguém passou avisando que as fontes da praça seriam ligadas às 11h”, relatou no blog “Meio Desligado” (leia depoimento completo na página 4).

Mas as fontes não foram ligadas no horário esperado, e então foi feita uma “vaquinha” para arrecadar dinheiro e pagar um caminhão-pipa que suavizasse o calor que sentiam as 300 pessoas que estavam ali.

Isso se repetiu em vários sábados daquele verão de 2010. Desde então, a periodicidade tem variado. Mas, basta a temperatura subir um pouquinho para a Praia dar as caras. Vai ser assim neste sábado (10), quando o evento, que completa cinco anos na próxima sexta (16), pretende dar boas vindas à programação de verão de BH. Mistura de evento cultural, manifestação política, performance e lazer que, de quebra, aplaca a carência de litoral dos belo-horizontinos, a Praia da Estação cada vez mais se consolida como um espaço de encontro e troca de experiências na cidade.

Reação

A Praia foi criada sem líderes, mais ou menos por acaso, mas com um propósito muito bem definido. Ela surgiu como uma reação ao decreto municipal 13.798, de 9 de dezembro de 2009, que proibia realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, como lembra a pesquisadora Milene Migliano, que esteve entre os primeiros “banhistas”.

“A partir do chamado ‘Vá de Branco’, de um blog anônimo, diferentes pessoas chegaram a se encontrar na praça no dia 7 de janeiro para tentar achar um modo de resistir ao decreto. Muitos de nós não nos conhecíamos antes e divergíamos em algumas coisas, mas percebemos que algo tínhamos em comum: precisávamos lutar contra o decreto, que era apenas mais um indício dos modos de cerceamento dos espaços públicos”, lembra. Aquelas pessoas criaram uma lista de e-mails para se comunicar e dali partiu, também anônima, a convocação para a primeira Praia da Estação, no dia 16, pouco mais de uma semana após o evento “Vá de Branco”.

A professora da Escola de Arquitetura da UFMG e coordenadora do grupo de pesquisa Indisciplinar, Natacha Rena, destaca que a Praia sempre foi um movimento pioneiro. “Não só na tentativa de ocupar o espaço de maneira livre, sem alvará, mas como uma forma de enfrentar um governo que beneficia o mercado em detrimento da sociedade”, diz. Dali, segundo ela, acabaram se formando (e se fortalecendo) outras iniciativas que também estão centradas na questão da autonomia, na ausência de lideranças e na ocupação do espaço público, como o Tarifa Zero BH e a própria retomada dos blocos de rua, no Carnaval de Belo Horizonte.

É uma nova forma de fazer política, de acordo com Natacha. “São movimentos de potência estética, que aglutinam muitas pessoas e são diferente de partidos e sindicatos, porque não precisam de panfletos, microfones e carros de som”, compara. “Eles são festivos, performáticos, mas também estão ocupando a Câmara Municipal, questionando a prefeitura, fazendo denúncias ao Ministério Público. A maioria é formada por uma classe média de estudantes e artistas, mas que está junto com os movimentos sociais de base”.

Nova postura

Diante da mobilização provocada por esses grupos, o decreto inicial foi revogado e, atualmente, é vigente a Lei 10.277, de 2011, que passa a prescindir da autorização municipal para eventos de pequeno porte realizados nos espaços públicos da cidade, desde que sem utilização de som mecânico ou montagem de palco; que tenham encerramento previsto para até as 22h; e que não obstruam a circulação de pedestres e veículos.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Administração Regional Municipal Centro-Sul afirmou, por meio de nota, que “o movimento Praia da Estação e as demais manifestações culturais e eventos no logradouro público são bem vindos. A área cultural em Belo Horizonte se fortalece a cada dia e essas atividades contribuem para tornar a cultura e as artes mais próximas da população. O que sempre buscamos é mobilizar os promotores dos eventos para que cuidem desses patrimônios da cidade durante e após as manifestações, para que o local, no término da festa, seja devolvido aos cidadãos em boas condições. Ou seja, limpo e sem depredação, já que o espaço é público”.

‘Ei, Chapolin, joga água em mim’ 

Alugada pelo grupo em outubro de 2010, a sede do Espanca!, na rua Aarão Reis, recebeu uma espécie de batismo da Praia da Estação. Durante o Carnaval de 2011, em que os “banhistas” desfilaram pelas ruas em forma de bloco pela primeira vez, percorrendo a região do baixo centro até a prefeitura, foi feita uma parada nas dependências do grupo teatral.

  “Nós enfeitamos a sede toda, compramos uma mangueira gigante e recebemos as pessoas lá dentro. Eu então subi na marquise e comecei a molhar o pessoal”, lembra a atriz Denise Lopes Leal, 30, que fazia produção para o Espanca!, na época. “Sou de Sabará e tenho o costume de sair no Carnaval de lá fantasiada. Então, no ano seguinte, resolvi fazer o mesmo aqui em BH e comprei uma fantasia de Chapolin, que foi um personagem que marcou minha infância”, conta.   Quando a sede do grupo se abriu novamente para os “banhistas” do Bloco da Praia, em 2012, Denise estava novamente a postos com a mangueira, mas a caráter dessa vez. Não demorou muito para o grito de guerra surgir: “Ei, Chapolin, joga água em mim!”. Ali criou-se uma tradição. “Eu acabei seguindo com o bloco até a prefeitura e molhando as pessoas com a mangueira do caminhão-pipa também”, lembra a atriz. Dali em diante, Denise – ou Chapolin – se tornaria um dos personagens mais marcantes da Praia, aparecendo em todas as edições para molhar os “banhistas”, que repetem o bordão todas as vezes.   Denise corresponde à expectativa e está sempre a postos, de traje a rigor, para refrescar o calor dos frequentadores. “Estarei lá neste sábado (10), mais uma vez”, garante a atriz, que está organizando um bloco só de Chapolins para o Carnaval deste ano.   A ligação da Praia com a retomada do Carnaval de rua da cidade, aliás, é intrínseca. Além de se transformar em um bloco durante o sábado da festa de Momo, é também onde Então, Brilha!, Baianas Ozadas, Corte Devassa e outros se reúnem para se despedir da folia, uma semana depois. “Os blocos já estavam renascendo sem motivação direta da Praia, mas acredito que ela foi um dos espaços em que as pessoas envolvidas com esse processo puderam se encontrar. E aí uma coisa foi reforçando a outra”, afirma o banhista Paulo Rocha, integrante do Coletivo Conjunto Vazio, um dos responsáveis pelo surgimento da Praia.   Sem lideranças Qualquer pessoa pode convocar uma Praia da Estação. Pode não ter motivo nenhum ou ter um motivo bem concreto, como foi a edição que celebrou o lançamento do projeto de lei Tarifa Zero, do movimento homônimo, em março de 2013. Seu ponto oficial é a Praça da Estação, mas também pode ser itinerante, como quando se uniu ao Fica Fícus, na avenida Bernardo Monteiro, no Santa Efigênia, em protesto pacífico para salvar as árvores daquela região, ou quando cruza as ruas de BH em forma de bloco.   Foi exatamente esse caráter livre que fez com que o publicitário Dú Pente, 26, resolvesse convocar a primeira edição deste ano para este sábado (10). Em menos de uma semana de existência, o evento convocatório no Facebook já reúne mais de 4.500 confirmações de presença. “Estava conversando com um amigo e achamos que já estava na hora. Já que a Praia não tem dono, nós resolvemos puxar, mas, se não fosse a gente, seria outra pessoa. Provavelmente isso deve acontecer com mais frequência daqui pra frente, já que devem começar os ensaios dos blocos de Carnaval”, diz.   A consolidação da Praia como evento garantido nos períodos de calor, por outro lado, faz com que ela perca, em alguma medida, a imprevisibilidade característica de quando começou. É nisso que acredita o “banhista” Paulo Rocha. “Todo esse ritual que existe de ir, esperar a chegada do caminhão-pipa, cantar as mesmas músicas, ver as mesamas pessoas, tira um caráter de perigo que ela tinha e pode afugentar possíveis novos participantes. Além disso, grande parte das pessoas deixou de entender o espaço da Praia como um lugar efetivo para pensar a ocupação da cidade, não só naquele momento”, argumenta.   Já a professora da Escola de Arquitetura da UFMG e coordenadora do grupo de pesquisa Indisciplinar, cujo objeto é o espaço urbano, pensa de maneira diferente. “Acho que sempre teve muita gente que vai à Praia só para se divertir, outras que vão como ato político e a maioria vai pelas duas coisas. Exemplo disso é que, no ano passado, foi uma Praia que se deslocou para a região do Viaduto Santa Tereza que acabou se transformando numa ocupação para exigir transparência e participação popular nas obras que estavam acontecendo ali”, afirma. “É um movimento muito inteligente porque não tem liderança, funciona como uma festa, tem um discurso de afeto, o que acaba atraindo pessoas que não iriam a uma manifestação convencional”.   Histórias da Praia   Inspirada e inspiradora  Desde 2010, a Praia já tinha um funk em sua homenagem. Ele acabou virando hino e o verso “deita no cimento” até hoje é lema. “Se liga aí prefeito, aqui não tem depredação. Praia-pra-praia-pra-pra-praia da estação!”, diz a letra. Seu autor, Luiz Gabriel Lopes, músico do Graveola e o Lixo Polifônico, mais tarde homenageou a “lúdica revolução” novamente, no disco “Eu Preciso de Um Liquidificador” (2011).   Herdeiros da Estação  Em Coronel Fabriciano, estudantes do curso de Arquitetura da Unileste (Centro Universitário do Leste de Minas Gerais) promoveram, em 2011, uma edição da Praia, na estação de trem da cidade.    O banhista está nu!  Em fevereiro de 2012, um  banhista mais ousado tirou a roupa e acabou detido pela Polícia Militar. O rapaz logo foi liberado, graças aos apelos de toda a Praia.   Placa indica praia Uma intervenção feita em 2013 transformou o Ç em I numa placa da avenida Afonso Pena, fazendo quem que ela indicasse o caminho para a Praia da Estação, ao invés da praça.   Depoimento   “Manhã ensolarada de sábado em Belo Horizonte. Na Praça da Estação, um pequeno grupo protesta contra a Prefeitura reunido sob a sombra da única árvore do local. “Protesto?”, se surpreendem alguns transeuntes com a calmaria da manifestação. Sob o olhar atento e curioso da Polícia e da Guarda Municipal, que ficam de longe, aos poucos mais gente vai chegando, carregando suas cadeiras e sombrinhas de praia. Estendem suas toalhas no chão da praça, tiram os shorts, as camisas e se cobrem de protetor solar. Um grupo começa a jogar peteca, outro, frescobol.   Alguém passa avisando que as fontes da praça serão ligadas às 11h. Ninguém sabe o que vai acontecer. A manifestação não tem líder. Nasceu na internet, fruto da indignação da população com a recente lei municipal que proíbe qualquer tipo de evento na praça e que, como um tiro no pé, acabou juntando os realizadores e frequentadores dos eventos na praça em torno de uma causa. As pessoas conversam e a “Praia da Estação” vai ganhando forma espontaneamente a cada minuto.    A imprensa fica sabendo e comparece. Instrumentos de percussão começam a surgir e por volta da hora do almoço a calmaria se perde em meio ao batuque e gritos de guerra como “Hey, polícia, a praia é uma delícia”. Dão 11h e as fontes não são ligadas. A Prefeitura diz que elas ‘estão em manutenção’. O forte calor e a falta de água fazem surgir a ideia: chamar um caminhão-pipa! Uma garota passa arrecadando o dinheiro da vaquinha e cerca de duas horas e R$ 150 depois, para delírio geral, um caminhão-pipa realmente estaciona na caótica avenida dos Andradas, bem em frente à praça. Os automóveis na avenida diminuem a velocidade ao passar e as pessoas que observam pela janela não acreditam no que estão vendo. Cerca de 300 pessoas de sunga e biquini estão sob a ducha de água pulando, tocando e gritando.    A cena é inacreditável. Uma faixa onde se pode ler a frase ‘A praça é do povo’ é pregada no caminhão-pipa. Gente voltando do trabalho adere à festa e, para completar o cenário surreal, um sujeito vestido de surfista chega carregando uma prancha e surfa sobre o público”.   Texto escrito pelo produtor cultural Leo Santiago, no blog www.meiodesligado.com.br, em 19 de janeiro de 2010.    

 

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