Ao mestre, com sadismo

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“Whiplash” venceu os prêmios de melhor filme pelo voto do público e melhor diretor no festival de Sundance em 2014
Sony Pictures/Divulgação
“Whiplash” venceu os prêmios de melhor filme pelo voto do público e melhor diretor no festival de Sundance em 2014

Andrew (Miles Teller), o protagonista de “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, que estreia (confira roteiro nesta página), não quer simplesmente ser um baterista de jazz. Ele quer ser o melhor, perfeito. Mas como já dizia Oscar Wilde, existem duas maldições na vida: uma é não conseguir o que se quer, e a outra é conseguir. Porque a perfeição, para o grande artista, não é felicidade: ela significa o fim, a morte. A grande obra é aquela que encontra poesia e verdade na soma de suas imperfeições, e o prazer do artista é tentar o tempo todo superar essas imperfeições, fazer delas seu combustível e ir além.

Só que, para Andrew, esse prazer é substituído por um ritual masoquista. Porque no seu caminho está Fletcher (J. K. Simmons), o “melhor” professor do conservatório onde ele estuda – que, claro, é o melhor do país. Fletcher é daqueles signatários de um método de ensino que ninguém nunca esquece: a tortura física e psicológica. E Fletcher se impõe pelo grito – a arma clássica de quem tenta esconder que, no fundo, não confia na própria competência – para fazer com que seus alunos sintam na pele (ou no ouvido) o tormento de sua frustração por não ser o gênio que gostaria de ter sido. Não que ele queira que algum deles se torne esse gênio: o único motivo pelo qual Fletcher elogia Andrew é para elevá-lo um pouco para que a queda que vem logo em seguida doa mais ainda.

O equilíbrio encontrado pelo roteiro do diretor estreante Damien Chazelle é não fazer dele uma caricatura unidimensional, ao mesmo tempo em que não tenta justificar seus atos ou torná-lo agradável. Fletcher é um bully que, assim como o sargento Hartman de “Nascido para Matar”, acredita que bullying cria caráter e disciplina. Um papel que cai como uma luva para J. K. Simmons que, desde “Oz”, vem encontrando o ser humano por trás de figuras irascíveis, num encontro perfeito que fez dele o favorito ao Oscar de ator coadjuvante deste ano.

Crueza emocional

Mas o motivo central pelo qual “Whiplash” funciona, ao invés de ser um continho moralista sobre o pobre aluno e o professor carrasco, é que Andrew responde a esse método. O mestre-dominador pede sangue, e o pupilo-submisso (literalmente) entrega – e Miles Teller repete aqui a mesma crueza emocional que já mostrou em “Reencontrando a felicidade” e “O Maravilhoso Agora”. Se cada nova baquetada não arranca um pedaço de suas vísceras, ela não parece ter valor.

O resultado é um “Cisne Negro” em que o pas de deux é protagonizado pela voz de Fletcher e a bateria de Andrew. E encenado por Damien Chazelle nos cortes e na edição de som milimetricamente calculados. O cineasta transpõe a obsessão de Fletcher pelo timing perfeito para sua montagem: enquanto o professor conduz a música, Chazelle faz de cada aula um solo de jazz guiado pela voz de Simmons, em que todo plano é uma nota que não pode durar um segundo a mais que o necessário.

O clímax disso é uma sequência final em que Andrew finalmente encontra a voz para encarar seu bully de igual para igual – e o resultado transforma em música e jazz toda a tensão e a catarse de um grande duelo de faroeste. É o momento em que “Whiplash” mostra por que tambores são usados para preparar batalhões antes de guerra: a percussão é o instrumento do coração, capaz de fazer pulsar o sangue e levar alguém a superar seus próprios limites. E o que faz dele um ótimo filme é que você vai sair dali se perguntando qual dos dois venceu e qual perdeu.

 

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