Líderes muçulmanos pedem que fiéis se desvinculem de jihadistas

Primeiro-ministro francês, Manuel Valls, ressaltou nesta sexta-feira que a França está em "guerra contra o terrorismo, e não contra uma religião"

iG Minas Gerais | AFP |

Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (à direita) cumprimenta o embaixador francês em Israel Patrick Maisonnave, em Jerusalém, depois de apresentar suas condolências após o ataque mortal no jornal satírico francês Charlie Hebdo
THOMAS COEX POOL/AFP
Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (à direita) cumprimenta o embaixador francês em Israel Patrick Maisonnave, em Jerusalém, depois de apresentar suas condolências após o ataque mortal no jornal satírico francês Charlie Hebdo

A comunidade muçulmana francesa prestará nesta sexta-feira (9) uma homenagem às vítimas do atentado contra o jornal Charlie Hebdo na grande oração semanal de sexta-feira, e seus líderes pediram aos fiéis que se desvinculem dos jihadistas, acusados de provocar o massacre em nome do Islã.

Os representantes desta comunidade - que conta na França com entre 3,5 e 5 milhões de membros - convocaram os imãs das 2.300 mesquitas do país a "condenar com a maior firmeza a violência e o terrorismo" em suas orações desta sexta-feira.

"A comunidade muçulmana está particularmente comovida e destroçada", declarou o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), Dalil Boubakeur, após o massacre pelo qual são acusados dois irmãos de origem argelina, cercados nesta sexta-feira pela polícia em um pequeno povoado a nordeste de Paris.

O CFCM, que representa o Islã na França, e o UOIF, um organismo próximo à Irmandade Muçulmana, colocaram de lado suas divergências para convocar os "cidadãos de confissão muçulmana a se somar maciçamente" à grande marcha prevista para domingo.

À revolta dos líderes religiosos soma-se o temor de que o ataque contra a Charlie Hebdo provoque um ressurgimento das ações contra muçulmanos.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, ressaltou nesta sexta-feira que a França está em "guerra contra o terrorismo, e não contra uma religião".

Desde quarta-feira (7), alguns locais de culto muçulmano foram atacados com tiros de armas de fogo ou impactos de outros projéteis em várias cidades da França, sem deixar vítimas.

Um indivíduo foi detido por escrever "Morte aos árabes" no grande portal da mesquita de Poitiers (centro), embora tenha confessado ter agido em estado de embriaguez e comovido pelo atentado contra a Charlie Hebdo.

Nesta sexta-feira apareceram penduradas na porta de uma sala de oração em Corte (Córcega) uma cabeça de porco e vísceras, indicou a gendarmaria.

O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, condenou na quinta-feira qualquer tipo de violência ou profanação contra locais de culto e ressaltou que "os autores de tais atos devem saber que serão procurados, detidos e punidos".

Entre a parede e a espada

"Tenho medo de que estes atos aumentem nos próximos dias. Pedimos ao ministério do Interior que preserve a segurança", comentou o presidente do observatório nacional contra a islamofobia, Abdullah Zekri.

"Os muçulmanos estão presos entre os que matam em nome do Islã e os extremistas que querem se vingar e pronunciam discursos estigmatizantes", afirmou.

"Ser muçulmano hoje na França é estar entre a espada e a parede: entre essa gente que mata em nome de sua religião e o crescente racismo antimuçulmano, que faz vender quilos de livros", afirmou o cantor do grupo musical francês Zebda, Mouss (Mustapha Amokrane).

Fateh Kimouche, um influente blogueiro, destaca, por sua vez, que "vários meios de comunicação nos dizem que os muçulmanos devem falar mais".

"Mas nos mobilizamos sempre!", exclama o fundador do site Al-Kanz, destinado à comunidade muçulmana da França.

"Quer lembrar que nós muçulmanos também fomos afetados: o policial abatido à queima-roupa (diante da sede da Charlie Hebdo) se chamava Ahmed Merabet. Nós também não nos livramos", afirma.

Segundo o historiador Benjamin Stora, a confusão entre Islã e islamismo é uma ferida para os que viveram a guerra civil na Argélia nos anos 1990, marcada pelo "surgimento de uma corrente do Islã político extremamente violenta".

"Quando dizemos + os muçulmanos +, esquecemos que há gente que sofreu a dura experiência do assassinato da inteligência", explica Stora à AFP, lembrando que nesta época os jornalistas e os caricaturistas argelinos já eram o principal alvo dos fundamentalistas.  

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