Verde é o novo vermelho

iG Minas Gerais |

Existe um blog americano, feito pelo jornalista/ativista Will Potter, que se chama Green is the New Red (Verde é o Novo Vermelho). O trocadilho é claro em sua simplicidade e ironia. A terminologia caducou, e hoje em dia a grande batalha social é pela preservação das condições de vida no planeta. Não adianta discurso social inspirado em ideais do século XIX e começo do século XX se o modelo social e econômico que se busca é ecologicamente insustentável e fixo em ideias obsoletas sobre o “pobre” “proletariado”, “classe média” e “elite”.

Algumas colunas atrás escrevi sobre a ausência do discurso verde durante a campanha presidencial, com exceção de Marina Silva, que também já diluiu bastante sua retórica, mas ainda se destaca por inserir conceitos de sustentabilidade no cerne de sua plataforma política. Marina não se identifica como de esquerda da mesma forma que a atual presidente o fez durante a campanha, por meio de uma estratégia milionária para vendê-la como uma espécie de ícone da luta contra a injustiça social do capitalismo, uma mártir da liberdade e dos direitos humanos. O fato de se precisar de marketing para vender essa ideia já demonstra como ela é falsa no caso de Dilma; o fato das pessoas a comprarem e ainda lhe dedicarem sua energia, ao custo de amizades desfeitas em redes sociais, demonstra como ainda é fácil enganar o eleitor, ou dar a ele uma ferramenta de delusão.

Nesse período altamente depressivo de pós-eleição, nada é mais sombrio do que o anúncio da representante do agronegócio Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A indicação de Abreu, que veio da cota pessoa da presidente Dilma, indica claramente qual é a sua inclinação política: proteger o interesse de minorias econômicas, ao custo do que estiver pela frente, o que inclui índios, florestas, animais, reforma agrária, etc.

“Ela defende os grandes empresários do agronegócio e não quer saber dos assentados, pequenos agricultores e populações tradicionais. Ela é contra a reforma agrária, contra os índios e contra a PEC do Trabalho Escravo. Suas ações são para defender interesses pessoais e mesquinhos de um grupo restrito de grandes proprietários de terras que priorizam o lucro em detrimento da preservação do meio ambiente e de seus guardiães”, segundo Danicley Aguiar, da Campanha Amazônia do Greenpeace, em um press release que a ONG publicou em protesto contra a presença de Abreu no quadro ministerial de Dilma 2.0.

Em uma entrevista ao jornal, “Folha de S. Paulo”, Abreu disse que não existe latifúndio no Brasil, afirmação que é negada por dados do próprio governo. Os números do cadastro de imóveis rurais do Incra, levantados a partir da auto-declaração dos proprietários de terras entre 2003 e 2010, mostram que na verdade a concentração de terras no Brasil só vem aumentando e a produtividade caindo. Dados recentes mostram que 130 mil proprietários de terras concentram 318 milhões de hectares, o equivalente a quase duas vezes o Estado do Amazonas. Isso representa um salto enorme desde 2003, quando 112 mil proprietários eram donos de 215 milhões de hectares.

É esse tipo de tendência que a presença de Abreu no Executivo deverá exacerbar. Como consumidores, devemos buscar apoiar a agricultura familiar e orgânica como forma de resistência a esse tipo de agricultura devastadora, que ocupa hábitats da vida selvagem e envenena o país com pesticidas proibidos em outros lugares. Essa é uma questão pertinente a todos, de esquerda ou direita; afinal de contas, o planeta ignora essas picuinhas retrógradas sobreviventes do século XX.

Lobo Pasolini é jornalista, blogueiro e videomaker. Ele escreve sobre energia renovável e questões verdes para www.energyrefuge.com e www.energiapositiva.info

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