Sem a sutileza de um Pedro Almodóvar

Longa de Xavier Dolan é uma bomba que explode e pulsa emoção, mas perde impacto ao ignorar o poder do silêncio

iG Minas Gerais | daniel oliveira |


Uma das musas de Dolan, Anne Dorval rouba o filme como mãe imperfeita
Mares Filmes
Uma das musas de Dolan, Anne Dorval rouba o filme como mãe imperfeita

Xavier Dolan é um dos diretores capazes de despertar maior aversão no cinema mundial hoje. O motivo: ser como aquele cara que é um seis, mas acredita piamente que é um nove. Dolan não é um mau realizador, mas também não é um gênio. Só que acha que é, dirige cada cena como se fosse – e o resultado parece sempre aquém do que ele promete.

“Mommy”, que está atualmente em cartaz no Belas Artes, é uma prova exemplar disso. O filme, sobre a mãe Diane (Anne Dorval) tentando criar o filho problemática Steve (Antoine-Olivier Pilon), parece querer gritar dramaticidade na cara do espectador o tempo todo.

Não só por ser um longa de closes, com a proporção da tela de 1:1, fazendo com que quase todo enquadramento pareça o close de um rosto, um pé ou um objeto, deixando o público muito próximo daquela história. Mas porque Dolan dirige toda cena a 220 volts, com muito diálogo, muita música, muito confronto. O canadense parece querer fazer de cada momento do filme o maior, ou o mais sublime.

E, quando ele acerta – como em um ou dois confrontos entre Diane e Steve, ou quando ele abre a tela em um belíssimo sonho da protagonista no fim do segundo ato –, o resultado é fantástico. A proporção entre erros e acertos, no entanto, acaba tornando o longa cansativo – e algo que tenta ser uma obra-prima, e não que é uma.

Para compensar por esses outros momentos em que sua direção não é o bastante, Dolan desfila uma lista de canções pop – como as ótimas “White Flag”, da Dido, “Wonderwall”, do Oasis, e “Born to Die”, da Lana del Rey – para ajudar a contar sua história. Só que ele não tem a mesma sutileza de um Scorsese, um Tarantino – ou mesmo um Almodóvar, mais próximo de seu universo – ao fazer isso, e o resultado muitas vezes é mais cacofônico do que sinfônico.

Mas isso não impede que a história desse amor tóxico, a única e a pior coisa que essa mãe e seu filho têm, cative. E a tela quadrada, além de reforçar esse sentimento como uma prisão para os dois, permite que Dorval quase carregue o filme com a potência de sua performance e seu rosto almodovariano – mesmo quando Dolan não encontra um fim satisfatório para ela. Perfeições imperfeitas de um cineasta que não é genial, mas pode estar no caminho para ser.

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