Bardo do Bar: Sapucaia

iG Minas Gerais |

acir galvao
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A não ser por uns estampidos ao longe, que Carlão, Vicente e Barão logo identificaram, sem fazer muito caso, como disparos de arma de fogo, tudo corria tranquilamente naquele fim de tarde no Sapucaia. O cenário era o de sempre, com a turma do truco à mesa na calçada, o garoto Canjica mudo em seu canto, o Severo como uma estátua de cera próximo à porta do bar e todos os outros frequentadores, os de sempre, fazendo o de sempre, ou seja, nada além de bebericar e jogar conversa fora amistosamente. Um frisson mudo, no entanto, tomou conta do espaço quando Berenice apareceu. Sumida há meses do Sapucaia, o que nos primeiros dias foi motivo de aflição entre a vetusta clientela, ela chegou acompanhada por uma outra moça, que aparentava ter a mesma idade, algo em torno de 30 anos, e segurava uma sombrinha multicolorida aberta sobre a cabeça, a despeito de não estar chovendo. Diferentemente do que sempre costumava, não foi até o balcão fazer os pedidos habituais, apenas cumprimentou laconicamente os velhinhos a quem outrora tratava com tanto carinho e até intimidade e foi sentar-se com sua acompanhante em uma mesa que ainda restava vazia na calçada. Pediu uma cerveja, uma porção de carne de sol com mandioca e ficou lá, conversando como quem segreda algo com a outra moça, que, já sentada, mantinha a sombrinha aberta. Passado o espanto e o encabulado silêncio geral, era possível ouvir um cochicho aqui e outro ali, entre o Carlão e o Vicente, o Vaca e o Alberico, enfim, entre os que estavam próximos uns dos outros. “O que aconteceu com a Berenice? Por onde ela andou todo esse tempo? Ela está diferente. Não costumava tratar a gente com essa frieza. Quem é essa moça que está com ela? Será que é a Berenice mesmo? Vai ver ela tem uma irmã gêmea e a gente nunca soube”, era o que se balbuciava ao pé do ouvido enquanto olhares dissimulados tentavam capturar alguma coisa da mesa em que Berenice e sua amiga estavam. As duas, como disse, conversavam muito baixo, com os rostos muito próximos uma da outra. Vez ou outra uma soltava um risinho maroto sem desviar o olhar da interlocutora. O Barão jurou que tinha um brilho diferente no olhar de Berenice, que, num dado momento, fez um afago no rosto da moça que a acompanhava, que, por sua vez, matinha a sombrinha aberta.

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