Por dias melhores

iG Minas Gerais |

Para cada um, o ano começa de um jeito. E ele segue como a vida: dias bons e dias ruins, numa eterna alternância de acontecimentos. A esperança precisa renascer entre dores e desalentos. Na velocidade do tempo, as notícias não param. Pior, assustam. Incomodam. Algumas vezes, são violentas. Devastadoras. Nove dias se passaram e, com eles, tragédias – mundiais, locais, pessoais. No caminho de alguns, logo nos primeiros dias, na volta do feriado prolongado, estavam curvas perigosas em estradas malcuidadas. Por lá também circularam medo e imprudência. Antes que pudéssemos comemorar a redução dos acidentes no começo de 2015, já soubemos o quanto eles foram violentos. Nas estradas mineiras, ou MGs, como são chamadas pela polícia, só em 13 acidentes (de um total de 280), 18 pessoas morreram. Foram 277 feridos. Isso sem contar as BRs, onde teve fim a vida de outras 31 pessoas. Famílias não vão esquecer essa dor. Pelo menos a de João Victor. Não conheço o rapaz de 15 anos. Mas li o que aconteceu com ele, e foi impossível não me entristecer. Perdeu o pai, a mãe, o irmão de 1 ano e os tios. Ele viajava com os primos Lukas, 21, e Aline, 23, no carro da frente. Os jovens perderam os pais. Uma história comovente de quem vai precisar renascer após uma tragédia. Já Luiz Henrique escapou das estradas, mas não da violência de uma grande cidade. Retornou do litoral e foi vítima de um assalto. Teve uma arma apontada para a cabeça e a mala roubada quando descia de um carro no bairro Santa Tereza, na região Leste da capital. No auge dos seus 30 anos está em pânico, com medo de sair de casa. É que não ficou só nisso. Os bandidos entraram com ele em sua casa e o agrediram. Para o administrador, a dupla suspeitou que ele fosse homossexual, e o preconceito terminou em coronhadas. As marcas não incomodam Luiz, que terá que se recuperar principalmente do trauma moral, além de vencer a sensação de insegurança. Na verdade, Luiz foi mais um. Talvez um dos primeiros do ano. É que os roubos cresceram muito nos últimos tempos. Os dados mostram isso. Um aumento de quase 100% em Minas Gerais em cinco anos. Assustadoramente, no ano passado, foram 91.676 ocorrências. Todas com emprego de violência. Só em Belo Horizonte a alta desses crimes no mesmo período chegou a 67,4%, outro cenário absurdo. Fica difícil não temer o que virá ao longo de 2015... Luiz já entrou nessa estatística. Ontem, um novo comandante assumiu a Polícia Militar, dizendo que o enfoque maior agora será o cidadão, e não o criminoso. Eu e tantos brasileiros queremos muito acreditar! Queremos crer que os crimes serão investigados, que conviveremos com menos burocracia, com mais ações. E, como se não bastasse tanta violência, o mundo ainda acompanhou, nesta semana, o retrato do ódio e da intolerância. Doze pessoas foram mortas em um atentado ao jornal semanal francês “Charlie Hebdo”. Homens armados executaram cartunistas, jornalistas e policiais. O ato é uma retaliação ao semanário, que publicou charges de Maomé. Para o islã, qualquer representação do profeta é considerada pecado. Tentaram calar a democracia. Apagaram os traços dos cartunistas mais respeitados do mundo. Silenciaram mestres. Sinceramente, às vezes, a frase clichê “o mundo anda perdido” é a mais adequada diante dos fatos. E também bastante desanimadora. Mas novos dias chegam, e se faz necessário reagir. O ano está só começando, e ainda há muito o que ser feita, ser dito, ser reconstruído. Principalmente no campo dos valores. Quero dias bons, notícias diferentes, que relatem menos corrupção, menos batalhas, mais respeito, entendimento, irmandade. Vamos esperar. De preferência, em paz. 

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