Vigilância universal de suspeitos de terrorismo é impossível

A busca dos irmãos Cherif e Said Kouachi, suspeitos de terem cometido o atentado, intensificou-se nesta quinta-feira

iG Minas Gerais | Folhapress |

Equipe da Charlie Hebdo realizou uma reunião nesta quinta-feira (8) para falar sobre o futuro da publicação
Equipe da Charlie Hebdo realizou uma reunião nesta quinta-feira (8) para falar sobre o futuro da publicação

Os dois homens procurados na França pelo ataque ao semanário satírico "Charlie Hebdo" estavam há tempos sendo observados pela Inteligência francesa, mas isso não impediu que passassem à ação.

Segundo especialistas consultados pela AFP, é quase impossível manter uma vigilância policial permanente.

A busca dos irmãos Cherif e Said Kouachi, suspeitos de terem cometido o atentado, intensificou-se nesta quinta-feira.

O mais novo, Cherif, de 32 anos, é um velho conhecido dos serviços antiterroristas franceses. Esteve envolvido no envio de combatentes ao Iraque em 2005, foi julgado e condenado. Também foi considerado suspeito de envolvimento na tentativa de fuga de uma figura do Islã radical, mas terminou absolvido nesse caso.

"Mas não é porque alguém está fichado, localizado, que tem uma vigilância permanente", disse à AFP Eric Dénécé, diretor do Centre Français de Recherche sur le Reinseignement (CF2R, Centro Francês de Pesquisa sobre Inteligência).

"Chega um momento em que a vigilância é suspensa, sobretudo se o vigiado é esperto o suficiente para se manter correto o tempo todo. São os inevitáveis buracos das redes", acrescentou.

Nesta quinta-feira de manhã, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, disse que "os indivíduos estavam sendo, sem dúvida, vigiados, mas não há um risco zero" frente à possibilidade de atentado.

O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, confirmou que "os indivíduos estiveram sob vigilância", mas que não eram alvo de um procedimento judicial, porque "não havia elementos sobre eles que sugerissem a iminência de um atentado".

Uma fonte policial disse à AFP nesta quinta que os dois irmãos não estavam efetivamente sob vigilância, embora Cherif tenha sido fichado pela Inteligência francesa como uma possível ameaça à segurança e aos interesses fundamentais da nação - o que, acrescentou a fonte, "é lógico, dado seu passado".

Ainda segundo a fonte policial, Cherif não fez qualquer "viagem recente" ao exterior.

Falta de recursos Desde os anos 1980, a França está exposta à ameaça terrorista tradicional. Há alguns meses, porém, a ameaça aumentou com o retorno, ao território francês, de centenas de aspirantes a combatentes que passaram pelo Iraque, ou pela Síria. Isso multiplica a quantidade de potenciais suspeitos e pode complicar o trabalho dos investigadores, com inúmeras pistas falsas.

"Não temos, é claro, os meios para colocar todo mundo sob vigilância permanente", admitiu recentemente, em conversa com a AFP, um dos responsáveis franceses da luta contra o terrorismo, que pediu para não ser identificado.

"Então, o que fazemos, é que organizamos listas. Os que parecem ser os mais perigosos, os que podem passar à ação, têm vigilância permanente; os outros, menos, em função dos meios. A lista evolui sem parar. Alguns saem, outros entram. A arte consiste em ter os nomes certos no lugar certo, e não é fácil", completou.

"A vigilância 24 horas de um suspeito - que, além disso, usa, com frequência, de três a quatro celulares diferentes - representa 30 policiais. Como querem que a gente faça? A única solução são as listas com prioridades", justificou.

Os projetos de atentados desmantelados recentemente, as filiais desmontadas e as redes neutralizadas provam que a França está diante de uma ameaça que pode assumir qualquer forma, constituída ao mesmo tempo por aprendizes de terroristas treinados e determinados, combatentes jihadistas aguerridos e todas as variantes possíveis entre esses perfis.

"No nosso país, o dispositivo jurídico para lutar contra essa ameaça existe e é eficaz", defendeu Eric Dénécé.

"Para vigiar tudo, seria preciso analisar o aumento em massa do efetivo policial, o que colocaria um problema democrático (...) e, de qualquer modo, não seria eficaz. Os investigadores não dariam conta. Estamos diante de uma ameaça assimétrica no sentido próprio do termo", explicou.

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