Novo terrorismo, velho desafio

Atentado de Paris faz parte de uma série de ataques que tiveram início na década de 90

iG Minas Gerais | Litza Mattos Raquel Sodré |

No ato.  Vídeo flagra momento em que os terroristas atiram em um policial nos arredores da revista “Charlie Hebdo”
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No ato. Vídeo flagra momento em que os terroristas atiram em um policial nos arredores da revista “Charlie Hebdo”

O atentado terrorista à revista “Charlie Hebdo”, em Paris, tinha potencial para parar a cidade. Poderia ter havido um toque de recolher, o comércio poderia ter sido fechado, o metrô poderia ter parado de funcionar. Poderia, mas não parou. Em um ato de resistência, os franceses continuaram a vida normalmente, como em qualquer outro dia na Cidade Luz – apesar do luto.

“A definição clássica de ‘terrorismo’ é a instauração do terror. Esses atentados não têm nenhum outro objetivo que não seja imprimir o regime do medo. A melhor forma de reagir a ele é fazendo exatamente o que os franceses estão fazendo: não se submeter ao regime do medo. É uma atitude corajosa, pois esse é um jogo de vida ou morte”, analisa o cientista político Christian Lohbauer, membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint), da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, o atentado de Paris faz parte de uma série de eventos que tiveram início na década de 90 e constituem o chamado “novo terrorismo”: manifestações do radicalismo islâmico contra a filosofia e o estilo de vida ocidentais. “A grande diferença, agora, é que existem milhares de ocidentais que abraçaram a causa (do Estado Islâmico), o que dificulta muito o trabalho de defesa, espionagem e as investigações”, considera Lohbauer.

Todos esses episódios refletem uma disputa pela hegemonia da visão de mundo. “Para nós, que vivemos em uma democracia, a doutrina fanática é difícil de entender. Mas, para gerações de jovens que foram treinados e crianças que foram educadas dentro do fanatismo do Hezbollah e do Hamas, por exemplo, o mundo é assim”, explica.

Países como EUA, França, Espanha, Canadá e Inglaterra estão mais expostos a esses atentados, pois já participaram de alguma ação de forças conjuntas contra o terrorismo, seja no Afeganistão, Iraque ou outros países radicais nos últimos 15 anos.

Futuro. Ainda não está claro de que forma o atentado à revista irá afetar o cenário internacional. “Já sabemos muito sobre o novo terrorismo. A grande incógnita é, talvez, o que vamos fazer com ele”, afirma o cientista político.

O episódio poderia, também, aumentar um atrito entre ocidentais e orientais. Na Europa, o preconceito contra o islamismo vem crescendo nos últimos anos. “Estereótipos estão sendo reforçados. É a questão da ‘islamofobia’ como uma reação, a percepção dos atentados de islâmicos radicais e do preconceito aos muçulmanos na Europa, que já acontece há muito tempo”, pondera Monique Sochaczewski, professora de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas.

Outra dúvida apontada por ela são as políticas que serão tomadas com relação aos europeus que se integraram a grupos como Al Qaeda e Estado Islâmico. “Muitos deles poderiam voltar, e não sabemos como seriam recebidos”.

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