Ousadia é a marca da revista

Tensão com o islã começou em 2006, quando foram publicadas ilustrações de Maomé

iG Minas Gerais |

Paris, França. O ataque ao semanário “Charlie Hebdo”, nesta quarta, é um sinal de que os islamitas radicais não esqueceram a irreverente revista que publicou em 2006 as caricaturas de Maomé. Desde então, charges com a imagem do profeta, consideradas ofensivas pelo islã, eram comuns em suas páginas.  

Há quase nove anos a revista sofre ameaças de radicais islâmicos. Sua redação foi incendiada em 2011, seu diretor sofreu ameaças de decapitação, e há meses os jihadistas pedem voluntários para ataques contra a França, militarmente envolvida com diferentes países, tanto no Oriente Médio como na África. “É evidente que, desde a primeira publicação das caricaturas de Maomé, a “Charlie” se transformou num símbolo, num alvo”, disse o ex-chefe da agência antiterrorista francesa, a DST, Louis Caprioli.

Para o islã, qualquer representação do profeta Maomé é considerada um pecado. Em 2005, caricaturas dinamarquesas do profeta provocaram uma onda de protestos violentos em todo o mundo muçulmano, matando pelo menos 50 pessoas. A “Charlie Hebdoo” vinha sendo ameaçada desde 2006, quando republicou essas mesmas charges. Em novembro de 2011, a sede da publicação foi destruída por um incêndio criminoso, já definido como atentado pelo governo na época.

Sempre polêmica, a revista gerou outra grave crise, em 2012, também por publicar charges de Maomé. Na época, autoridades francesas chegaram a enviar a polícia para proteger os escritórios da publicação e fecharam embaixadas, escolas e consulados em cerca de 20 países durante um dia de orações no mundo árabe. Desde o ano anterior, quando a sede da revista foi atacada, seus editores passaram a viver sob proteção policial.

Em 2013, um homem de 24 anos foi condenado à prisão por ter pedido na internet que o diretor da revista, Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb, fosse decapitado. Charb também estava numa lista de “procurados” pela Al-Qaeda.

Mesmo diante das ameaças, o diretor da revista – que foi uma das vítimas do atentado – não se intimidava. Numa entrevista ao jornal francês “Le Monde” há dois anos, ele afirmou que não pretendia baixar sua arma, ou seja, sua caneta, em meio a polêmicas envolvendo sátiras a líderes muçulmanos e ao profeta Maomé. “Não se tem a intenção de degolar alguém com uma caneta”, repetia. Ele também dizia seguir a lei francesa, não a do islã.

Profissionais lamentam perda dos cartunistas Duke, cartunista do jornal O TEMPO, disse que os conflitos e as ameaças em razão de charges que ironizam o profeta Maomé não são de agora, mas “é assustador pensar que uma tragédia dessa dimensão tenha ocorrido”. “Como bem escreveu a amiga jornalista Claudia Resende, ‘diante de tantas formas de silêncio impostas aos profissionais da imprensa – a coação, a censura direta ou indireta, a chantagem, a pressão, a demissão –, a violência física é a mais extrema, é a que põe fim à vida’”. O cartunista Laerte também se pronunciou: “Isso é um gesto de uma agressividade e de uma violência absurdas”. “Dia triste para os que acreditam que a inteligência pode ser maior do que a violência”, disse André Dahmer, acrescentando que todos os cartunistas mortos eram “pessoas progressistas”.

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