Manhã de 31 de janeiro de 1961 e hoje

iG Minas Gerais |

Passei a noite em claro. Havia muito o que festejar. Queríamos que logo o dia raiasse. Custara muito chegar a ele. Um grupo de estudantes da Faculdade de Direito de Minas Gerais – era o nome oficial da Casa de Afonso Pena, infelizmente já derrubada por um diretor de pouco compromisso com o passado, nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (ah, essas nomeações um tanto a Floriano Peixoto) – comemorava na praça Afonso Arinos a posse de um político dado a demonstrações de demência que aparentemente ninguém parecia perceber. Normalmente, a turba deveria estar cedendo ao cansaço de longa jornada cívica. Mas não. O entusiasmo aliviava pernas, braços ao ar, gargantas ressequidas. Cantava-se “varre, varre, vassourinha”, como se esse fosse o instrumento de desenvolver o país. Por volta do meio-dia, JK passara a Presidência da República. Fizera um discurso sóbrio, recheado de elogios ao seu governo, que decerto seriam merecidos, não fossem o sonho irresponsável de Brasília e a espiral inflacionária do excessivo aquecimento. O troco veio a galope, montado num pronunciamento deselegante do sucessor, ouvido pelo ex-presidente a bordo do avião que o transportou para o Rio. Os ataques prosseguiram, e demorou pouco para que notícias de que se preparava um golpe ganhassem as ruas. Foi o meu primeiro voto, inchado de esperanças equivocadas. No tumulto de um governo sem rumos e sem destinos, desembarcamos no mês de agosto, tórrido de calor em Brasília, como nesse 1º de janeiro, para as solenidades de sucessão da presidente para a mesma presidente. Até nisso, a reeleição é estranha. Fora dos movimentos sociais e sindicais, petistas, esquerdistas, radicais, estavam gatos pingados daquela assistência sempre pronta para engrossar esses atos. É como uma distração debaixo de um circo que se ergue para uma plateia que se diverte e se esquece momentaneamente das dificuldades do dia a dia empoeirado de desesperanças. Afinal, a presidente Dilma cumprirá mais quatro intermináveis anos. Somados aos oito do ex-presidente Lula, perfazem 16 anos de lulopetismo. Por certo, o país vai sofrer. Aguentará a carga? A nação, no mínimo pela sua metade, está entre a ansiedade e a desconfiança. Na verdade, foi a mesma presidente que provocou a incerteza que quase a leva ao desastre eleitoral. Quem sofreu as dores do medo não se livrará deles diante das dificuldades que terão de ser enfrentadas. Os dedos apontarão para a chefe do governo. Quem, pela ação autoritária, mandou o seu fracassado ministro da Fazenda tumultuar o quadro macroeconômico que recebeu em relativa ordem. Por que a equipe econômica vergou ao peso do voluntarismo presidencial? Covardia, apego aos cargos que desmereceram? É o que veremos e saberemos nos próximos meses: foi ou não foi para valer a suposta virada? Em 1961, a imensa esperança foi esmagada pela decepção; em 1964, as instituições sucumbiram; agora, o peso do déjà vu nos massacra. Vão tocar um tango argentino?

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