Ao terrível mestre, com sadismo

‘Whiplash: Em Busca da Perfeição’ tem favorito ao Oscar de ator coadjuvante

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Assustador. J. K. Simmons já venceu mais de 20 prêmios por sua performance como um carrasco perfeccionista
Daniel McFadden
Assustador. J. K. Simmons já venceu mais de 20 prêmios por sua performance como um carrasco perfeccionista

Andrew (Miles Teller), o protagonista de “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, que estreia hoje, não quer simplesmente ser um baterista de jazz. Ele quer ser o melhor, perfeito. Mas como já dizia Oscar Wilde, existem duas maldições na vida: uma é não conseguir o que se quer, e a outra é conseguir. Porque a perfeição, para o grande artista, não é felicidade: ela significa o fim, a morte. A grande obra é aquela que encontra poesia e verdade na soma de suas imperfeições, e o prazer do artista é tentar o tempo todo superar essas imperfeições, fazer delas seu combustível e ir além.

Só que, para Andrew, esse prazer é substituído por um ritual masoquista. Porque no seu caminho está Fletcher (J. K. Simmons), o “melhor” professor do conservatório onde ele estuda – que, claro, é o melhor do país. Fletcher é daqueles signatários de um método de ensino que ninguém nunca esquece: a tortura física e psicológica. Do tipo que corrige um aluno dizendo “isso aqui não é o pau do seu namorado, então faça o favor de não gozar antes da hora”.

E se a mensagem não funcionar, na próxima vez ele joga uma cadeira em você. Literalmente. Fletcher se impõe pelo grito – a arma clássica de quem tenta esconder que, no fundo, não confia na própria competência – para fazer com que seus alunos sintam na pele (ou no ouvido) o tormento de sua frustração por não ser o gênio que gostaria de ter sido. Não que ele queira que algum deles se torne esse gênio: o único motivo pelo qual Fletcher elogia Andrew é para elevá-lo um pouco para que a queda que vem logo em seguida doa mais ainda.

O equilíbrio encontrado pelo roteiro do diretor estreante Damien Chazelle é não fazer dele uma caricatura unidimensional, ao mesmo tempo em que não tenta justificar seus atos ou torná-lo agradável. Fletcher é um bully que, assim como o sargento Hartman de “Nascido para Matar”, acredita que bullying cria caráter e disciplina. Um papel que cai como uma luva para J. K. Simmons que, desde “Oz”, vem encontrando o ser humano por trás de figuras irascíveis, num encontro perfeito que fez dele o favorito ao Oscar de ator coadjuvante deste ano.

Método. Mas o motivo central pelo qual “Whiplash” funciona, em vez de ser um continho moralista sobre o pobre aluno e o professor carrasco, é que Andrew responde a esse método. O mestre-dominador pede sangue, e o pupilo-submisso (literalmente) entrega – e Miles Teller repete aqui a mesma crueza emocional que já mostrou em “Reencontrando a Felicidade” e “O Maravilhoso Agora”. Se cada nova baquetada não arranca um pedaço de suas vísceras, ela não parece ter valor.

O resultado é um “Cisne Negro” em que o pas de deux é protagonizado pela voz de Fletcher e a bateria de Andrew. E encenado por Damien Chazelle nos cortes e na edição de som milimetricamente calculados. O cineasta transpõe a obsessão de Fletcher pelo timing perfeito para sua montagem: enquanto o professor conduz a música, Chazelle faz de cada aula um solo de jazz guiado pela voz de Simmons, em que todo plano é uma nota que não pode durar um segundo a mais que o necessário.

O clímax disso é uma sequência final em que Andrew finalmente encontra a voz para encarar seu bully de igual para igual – e o resultado transforma em música e jazz toda a tensão e a catarse de um grande duelo de faroeste. É o momento em que “Whiplash” mostra por que tambores são usados para preparar batalhões antes de guerra: a percussão é o instrumento do coração, capaz de fazer pulsar o sangue e levar alguém a superar seus próprios limites. E o que faz dele um ótimo filme é que você vai sair dali se perguntando qual dos dois venceu e qual perdeu.

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