Brasileiros relatam clima confuso, mas de luta em toda França

Ruas estão fechadas por manifestantes, mas o grito de guerra é o silêncio

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

Polícia e ambulância nas ruas é presença massiva em Paris após ataque
LÚCIA SCHMIDT
Polícia e ambulância nas ruas é presença massiva em Paris após ataque

"O sentimento aqui não é de medo. É de resistência", contou a socióloga Maria Helena Rossi que, atualmente, mora em Paris. Cerca de cinco mil pessoas se posicionam na frente da sede do semanário Charlie Hebdo em protesto contra o ataque terrorista que matou 12 pessoas, entre elas, oito jornalistas que estavam em uma reunião de pauta no jornal. O ataque seria uma represália às capas e publicações polêmicas do semanário, que satirizam personagens como Maomé e religiões que reúnem adeptos extremistas.

"O que a gente observa é que a população está muito abalada emocionalmente. Mas aqui, não há este medo, o sentimento é mais de resistência. Quando acontecem esses ataques, a população apela para a União, se manifesta. Mas o país está em alerta. Passei em frente a um posto policial e os policiais estão armados, prontos pra atirar mesmo. A polícia aqui não anda armada", contou ainda a socióloga.

A jornalista Lúcia Schmidt, que também está em Paris, conta que a cidade está normal. "O que assusta é o forte esquema de policiamento, em particular, nos pontos turísticos, e o barulho ensurdecedor de sirenes de viaturas e ambulâncias. É verdade que a cidade está mais vazia do que o normal, mas pode ser por causa do frio que está fazendo", contou.

O estudante João Raphael, de 23 anos, que está passando as férias na capital francesa, conta que não pretende evitar os pontos turísticos. "Sinceramente não vou evitar de sair não, porque me parece uma coisa bem focada, parece que foi uma retaliação mesmo, a princípio, não acho que vão haver outros ataques. Mas a gente fica assustado", disse.

Na praça Republique, milhares de pessoas se reúnem em protesto, conforme contou o produtor Gustavo Schettino, que participou da manifestação. "Acabo de sair da praça da mais democrática de Paris, que fica perto do local do ataque. Milhares de pessoas nas ruas. Todas as ruas em volta estão fechadas pelo povo. Todas em silêncio, mas às vezes ecoam gritos individuais que acabam vibrando em coletividade: liberté, liberté, liberté d´expression! O sentimento aqui é de choque e de absoluta tristeza. Mesmo que tenha sido um ato programado e planejado, e que pode ocorrer a qualquer momento novamente, as pessoas estão nas ruas", contou.

"Sobre a questão politica que está sendo muito discutida: não se trata de prato cheio para os extremistas da direita. Com estes atos extremistas, todos já estão de prato cheio, mas de saco cheio. O sentimento é a urgência de um mundo mais justo e pacifico", completou ainda o produtor cultural.

Novo atentado

A estudante de matemática da Universidade Joseph Fourier, Thaís Blank, conta que em Grenoble, cidade do interior da França, onde mora, foi surpreendida por um novo atentado. "No início da noite, outro impacto: abri a janela do meu apartamento e vi um carro em chamas. Não consigo dizer se foi um atentado contra os muçulmanos ou uma reação dos próprios muçulmanos. As coisas estão confusas ainda, mas o interior da França está apreensivo", disse. 

Ela também endossa o clima de tristeza. "Aqui, o clima é de luto. Ficamos com a sensação de que, embora com muito menos mortos, o episódio de Paris, guardando as devidas proporções, só encontra paralelo com os atentados de 11 de setembro. No meu bairro, Vigny Musset, moram muitos muçulmanos. Todos são extremamente simpáticos no dia a dia. E o que vejo cotidianamente é um respeito muito grande. Lamento que isso possa causar qualquer tipo de perseguição religiosa".

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