Cartunistas lamentam morte de George Wolinski, vítima de atentado

Georges Wolinski era considerado um dos maiores nomes do gênero no país

iG Minas Gerais | Folhapress |

AFP PHOTO / PHILIPPE DUPEYRAT
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Cartunistas lamentam a morte do cartunista Georges Wolinski, 70, uma das vítimas do atentado ao jornal satírico francês "Charlie Hebdo" nesta quarta (7), e considerado um dos maiores nomes do gênero no país. Nascido na Tunísia em 1934, Wolinski mudou-se para a França aos treze anos. Durante os eventos de maio de 1968, fundou o jornal "L'Enragé", juntamente com o caricaturista Siné -dando viés político a seus cartuns. No atentado, ao menos dez jornalistas e dois policiais foram mortos na sede da publicação, em Paris. De acordo com a polícia, três homens fizeram disparos e depois fugiram em um carro dirigido por um quarto integrante do grupo. O jornal já sofreu ataques por publicar caricaturas de líderes muçulmanos e do profeta Maomé. Em 2011, a redação foi alvo de um incêndio criminoso após ter publicado uma série de caricaturas sobre Maomé. Cartunistas comentam a morte de Georges Wolinski Laerte "Isso é um gesto, de uma agressividade e de uma violência absurdas. Eu continuo a favor da liberdade de expressão. Continuo achando que deve existir, mas que existe num mundo que também não pode ignorar um contexto de maioria religiosa e mexer com os dogmas daquela religião impunemente. É uma polêmica bastante ambígua, cheia de lados. Faço questão de levar todos esses lados em conta. Não acho que deve haver liberdade de expressão pra quem tá a fim de fomentar o ódio, o machismo, a homofobia e o racismo. Mas eu também sou a favor da liberdade de expressão -o humor sem liberdade de expressão morre. Não vi as charges que motivaram os ataques -não tenho como opinar sobre isso. Não posso dizer que foram eles [os chargistas] que provocaram o ataque. Tem que levar em conta as tensões crescentes no Oriente Médio, a direita ultracrescente na Europa." Adão "Hoje foi um dia difícil para eu me mover. Tenho grandes influências, como Angeli, Henfil, Glauco, mas o Wolinski é grande parte de tudo o que eu sou. Conheci o trabalho dele em Porto Alegre, com uns 22 anos, e fui morar na França por causa dele. Acho que todo mundo da minha geração tem influência dele. Uma vez comentaram comigo que o Wolinski é um escritor que desenha, e é bem isso mesmo. Hoje fui vendo as notícias e, quando vi o nome dele, fiquei mais paralisado. O mundo inteiro está paralisado. Foi uma facada em todo desenhista, todo jornalista, e as facadas em toda a humanidade estão cada vez ficando piores. Cada um de nós morreu um pouco hoje." Allan Sieber "Para mim, é como se tivessem dado um tiro na cabeça de um Jaguar, um Drummond. É muita brutalidade. A gente vive num mundo brutal, mas tem vezes que a gente acha que está escolado e as coisas te surpreendem. Wolinski foi uma referência pra mim. Conheci o trabalho dele numa coletânea de quadrinhos publicada nos anos 1980 pela L&PM. Quando pus os olhos naquilo vi que o humor podia ser uma coisa ao mesmo tempo escrota e ultrasofisticada. O desenho dele também tinha essa coisa de variar entre o superchutado e rápido e o superrebuscado, com sombras, bem desenhado. O humor dele, dessa linha da "Charlie Hebdo", tudo pelo humor, sem concessões, sem dúvida me inspirou muito." Arnaldo Branco "Ele era um alento pra quem desenha mal. Embora desenhasse bem, ele subproduzia o traço dele de propósito, fazia um desenho meio tosco para ressaltar os aspectos cômicos da piada. É impressionante imaginar que ele morreu nas mãos de alguém que ele incomodou, e incomodou gente à beça, os comunistas, os direitistas, era uma metralhadora giratória. Ele morrer dessa maneira parece até um troféu de guerra para um cara que sempre foi tão combativo. Acho importante ressaltar o absurdo da situação. Não sei que causa é essa, que verdade é essa, que precisa se vingar de uma piada. Que causa tão fraca é essa que usa o assassinato contra uma piada." André Dahmer "Dia triste para os que acreditam que a inteligência pode ser maior do que a violência. Wolinski e três dos melhores cartunistas da França estão mortos. Pessoas progressistas, vozes que falavam contra os desmandos da direita francesa inclusive. Wolinski é uma perda irreparável. Um cara que influenciou três gerações de desenhistas. Talvez o maior cartunista em atividade. Lamentável e incompreensível." Caco Galhardo "Wolinski era um dos gigantes do cartum, um dos caras mais legais. É uma perda absurda para o mundo dos quadrinhos -ele era um dos maiores. Mais do que quadrinista, era um cartunista assim nato, de mão cheia. Eu conheci pouco o Wolinski, mas ele era sempre uma influência, porque era o mais despirocado, o mais livre dos cartuns. Ele colocava essa coisa da liberdade dele nos seus cartuns. É uma coisa horrorosa, um atentado por causa de charge, de cartum. É uma violência sem precedentes, eu não me lembro de haver algo desta forma antes." Fernando Gonsales "Posso dizer que fico muito chateado, porque ele era um puta cartunista, que influenciou muita gente no Brasil, direta ou indiretamente. Para mim foi indiretamente, através de outras pessoas, porque [as tiras] chegavam ao Brasil em publicações mais alternativas, eram vistas por gente mais antenada -o que não era o meu caso." Rafael Campos Rocha, no Facebook "WOLINSKI foi acusado de falocrata, masculi e todas essas merdas, porque era um LIBERTÁRIO. Quem matou foi mais um desses patrulheiros filhos da puta, para o qual a causa (seja religiosa, política ou de gênero) não serve para LIBERTAR, mas sim para COIBIR, CASTRAR e DESTRUIR, além de, é claro, de manter a sociedade de exploração, que vocês, moralistas de merda, precisam para continuar transformando a vida dos outros em um inferno."

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