"Assustador", dizem chargistas a respeito de ataque terrorista

O ataque terrorista mais violento nos últimos 40 anos na França chama a atenção da sociedade em relação à censura e deixa jornalistas e artistas temerosos

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

A combination of file photos made on January 7, 2015 shows (top from L) French cartoonist Jean Cabut, aka Cabu, posing at his home in Paris on December 10, 2008, French cartoonist Tignous posing in Cannes on May 17, 2008, (bottom from L) French satirical weekly Charlie Hebdo's publisher, known only as Charb, posing in Paris on December 27, 2012 and French cartoonist of the satirical newspaper Charlie Hebdo Georges Wolinski poSing in Angouleme on January 26, 2006. At least 12 people were killed, including cartoonists Charb, WolinsKi, Cabu and Tignous, when gunmen armed with Kalashnikovs and a rocket-launcher opened fire in the Paris offices of French satirical weekly Charlie Hebdo on January 7, 2015.  AFP PHOTO / STEPHANE DE SAKUTIN / FRANCOIS GUILLOT / FRANCOIS GUILLOT / PATRICK BERNARD
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A combination of file photos made on January 7, 2015 shows (top from L) French cartoonist Jean Cabut, aka Cabu, posing at his home in Paris on December 10, 2008, French cartoonist Tignous posing in Cannes on May 17, 2008, (bottom from L) French satirical weekly Charlie Hebdo's publisher, known only as Charb, posing in Paris on December 27, 2012 and French cartoonist of the satirical newspaper Charlie Hebdo Georges Wolinski poSing in Angouleme on January 26, 2006. At least 12 people were killed, including cartoonists Charb, WolinsKi, Cabu and Tignous, when gunmen armed with Kalashnikovs and a rocket-launcher opened fire in the Paris offices of French satirical weekly Charlie Hebdo on January 7, 2015. AFP PHOTO / STEPHANE DE SAKUTIN / FRANCOIS GUILLOT / FRANCOIS GUILLOT / PATRICK BERNARD

O ataque terrorista que deixou 12 mortos e 20 feridos na manhã desta quarta-feira (7) na sede do semanário francês Charlie Hebdo, além de revolta, causa temos em jornalistas e artistas do mundo todo. Isso porque, de acordo com os primeiros levantamentos da polícia francesa divulgados pela mídia do país, o ataque teria sido uma represália em função das publicações do jornal, conhecido pela falta de medo ou auto-censura em satirizar figuras religiosas que detém adeptos extremistas.

As vítimas ainda não foram todas identificadas, mas já se sabe que entra elas, além de dois policiais, estão jornalistas e chargistas do semanário, que estariam em uma reunião de pauta quando foram executados na sede do Charlie Hebdo, no 11° bairro de Paris, uma região tranquila e familiar, segundo moradores da cidade. Após o assassinato, os suspeitos, que chegaram encapuzados e munidos de AK-47, espécie de fuzil de fabricação russa com alto potencial ofensivo, gritaram palavras como "vingamos o profeta" e "Alá é o maior" .

Os quatro chargistas executados são Stephane Charbonnier, o Charb - também diretor do semanário -, Jean Cabut, Georgers Wolinski e Bernard Verlhac, o Tignous. São eles os responsáveis por capas e charges icônicas do Charlie Hebdo que despertaram a ira dos extremistas, como por exemplo, o desenho de um judeu ortodoxo empurrando uma cadeira de rodas com um homem de túnica e turbante na capa de uma das edições. Ou um desenho no interior da publicação em uma das edições onde Maomé, o profeta do Islã, está deitado na cama dizendo "E meu traseiro, você gosta do meu traseiro?", parafraseando a atriz francesa Brigitte Bardot no filme cult "O Desprezo", de Jean-Luc Godard.

Este foi o ataque mais violento registrado na França nos últimos 40 anos, segundo o próprio presidente do país, mas não foi o único direcionado ao semanário. Em 2011, por exemplo, a sede da Charlie Hebdo foi destruída em um incêndio de origem criminosa depois da publicação de um número especial sobre a vitória do partido islâmico Ennahda na Tunísia, no qual o profeta Maomé era o "redator principal". Além disso, jornalistas, editores e chargistas eram vítimas constantes de ameaças.

Aqui no Brasil, a classe artística se mobiliza em solidariedade ao semanário, postando capas da publicação ou referências com os dizeres "Je sui Charlie", que em francês significa "eu sou Charlie".

Desde que ficou sabendo do ocorrido, por exemplo, o criador da tirinha "Malvados", André Dahmer, tem se manifestado pelo twitter. À reportagem ele contou que o ataque parece mesmo ser uma prévia do fim dos tempos.

"A gente ainda não sabe os culpados e também não vou apontar o dedo pra ninguém, mas me parece o final dos tempos. É um mundo inseguro para quem faz humor. O Wolinski, por exemplo, influenciou três gerações de desenhistas, é o homem que inspirou Ziralgo, Jaguar, Angeli, Nani, Laerte. Um senhor de 80 anos morrer dessa forma violenta, um cara que disseminou alegria, que fez com que as pessoas pudessem rir e pensar ao mesmo, sem falar dos outros três proeminentes chargistas franceses que também foram mortos. É inacreditável".

O responsável pela Zarabatana, editora brasileira especializada em quadrinhos, Cláudio Martini, também se pronunciou sobre o atentado e se lembrou de quando conheceu Wolinski durante uma exposição retrospectiva de seu trabalho no Festival International de la Bande Dessinée, em Angoulême, na França. "É difícil se deparar com uma situação dessas, acho que agora as pessoas vão pensar duas vezes antes de abordar um assunto, o que é muito prejudicial para o humor", disse.

O chargista Duke, também lamentou o ocorrido e se disse sem palavras para conseguir descrever o quanto a morte das vítimas o abalou.

"Eu não sei nem o que dizer direito, eu realmente estou muito abalado, até mesmo pelo fato de haver essa empatia profissional que aumenta o nosso envolvimento. É uma coisa tão absurda esse grau de intolerância, eu não sei nem dizer se é a religião em si. Eu diria que são seres humanos muito ruins, pessoas más mesmo, que são capazes de tirar a vida de outras pessoas por diferenças de concepções e valores a respeito da existência. Ainda mais quando se leva em conta questões que procuram valorizar o humor, que é justamente o contrário disso tudo. O contrário da violência, do ódio, é o humor e o amor. O que aconteceu é algo que deixa a gente extremamente triste e preocupado. Aí você pensa que esses caras, o Wolinski, por exemplo, que era um dos chargistas mais importantes do mundo, que influenciou uma geração de brasileiros, perderam a vida por causa das charges. Você desenhou, expressou o que acha de uma cultura diferente de você, e por isso, merece ser morto? Você não pertence a essa cultura e tem que viver sobre a ótica deles? É um negócio tão assustador. Eu, particularmente hoje, estou profundamente abalado".

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