Estado Islâmico ‘levou’ cerca de 3.000 pessoas da Europa

Pais de jihadistas perdem os filhos, e as comunidades em que vivem se fecham para eles

iG Minas Gerais | Kimiko De Freytas Tamura |

Terror. Radicais do Estado Islâmico executam dezenas de prisioneiros no Iraque, em junho de 2014, em foto exposta por eles na internet
WELAYAT SALAHUDDIN/afp - 9.6.2014
Terror. Radicais do Estado Islâmico executam dezenas de prisioneiros no Iraque, em junho de 2014, em foto exposta por eles na internet

Manchester, Inglaterra. Todo mundo no Centro Islâmico Alfurqan conhece os pais que tentaram resgatar as filhas gêmeas depois que elas fugiram para se juntar ao Estado Islâmico (EI). As pessoas sabem como Ibrahim Halane e a esposa, Khadra Jama, imigrantes da Somália, seguiram as filhas à Turquia. Elas sabem que Jama, que se arriscou na Síria atrás delas, foi presa pelos militantes e ficou detida por mais de cinco semanas. E estão cientes de que os pais voltaram de mãos abanando, pois as filhas de 17 anos, Salma e Zahra, já estavam casadas com jihadistas.

Todos conhecem a história e se solidarizam, mas mantêm distância. “Sabemos que ele está aborrecido, e todos sentem muito por ele”, disse Haji Saab, diretor da mesquita, a respeito de Halane. Contudo, “nós o deixamos em paz”.

Também foi muito difícil para a comunidade, disse Saab. Ela se fechou. Segundo ele, “as pessoas estão traumatizadas”.

Acredita-se que perto de 3.000 homens e mulheres teriam deixado a Europa, desde que a guerra na Síria se intensificou, para se juntar a grupos de militantes como o EI. Embora os familiares e amigos torçam por um regresso seguro, autoridades de todo o continente estão adotando medidas para impedi-los, em meio a temores de que irão recrutar outras pessoas ou trazer a violência com eles.

Entretanto, em muitos casos eles já criaram tumulto para as famílias e comunidades, asseguram pessoas próximas de quem foi deixado para trás. Pais como Halane e Jama vivem com a preocupação de que nunca mais verão os filhos – muitos dos quais são apenas adolescentes – e de que irão enfrentar isolamento e medo.

E com as autoridades pouco prestativas – e, em grande medida, insensíveis – na maioria dos casos, mais famílias buscam resolver o problema sozinhas, tentando chegar à Síria para resgatar os filhos. “Até mesmo os parentes os ignoram, porque têm medo de serem ligados aos chamados terroristas e de terminarem presos”, declarou Saleha Jaffer, que dirige a organização londrina Famílias Contra o Estresse e o Trauma.

Em muitos casos, como o de Halane, as famílias se isolam. O trauma é particularmente agudo entre os somalis, que lutam com a atração do extremismo islâmico em múltiplas frentes; acredita-se que mais de cem britânicos tenham se unido ao Shabab, grupo islâmico da Somália.

Para os ativistas, os governos estão piorando o problema com planos de endurecer a lei antiterror, aumentar o número de interpelações e revistas e com as sentenças de 12 anos de prisão anunciadas recentemente na Grã-Bretanha a dois jihadistas que voltavam depois de as famílias cooperarem com a polícia. Para os ativistas da comunidade, essas políticas estão desestimulando que outras pessoas se apresentem. A polícia prendeu mais de 270 pessoas por acusações ligadas ao terrorismo no país em 2014. “Ninguém está falando de seu impacto nas famílias e comunidades”, disse Mohammed Shafiq, diretor-presidente da Fundação Ramadã, de Manchester, que desencoraja jovens a entrar para o Estado Islâmico.

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