Um voto de perseverança

iG Minas Gerais |

Não se sabe se todo mundo que prometeu fugir para Miami em razão do revés eleitoral cumpriu a promessa. Teve artista que desistiu, ainda que contrariado, mas teve empresário que honrou a palavra, arrumando as malas com mulher e filhos a tiracolo. Seja feliz quem partiu. Miami conjuga desejos erráticos, escapistas, é um paraíso de redenção sonhada por latinos insatisfeitos com suas pátrias há mais de século. A cidade (ou a Flórida como um todo) tem tudo de bom que os Estados Unidos podem oferecer sem o ônus glacial. O Atlântico de Copacabana é o mesmo de Palm Beach, onde as palmeiras à beira-mar confirmam a prevalência do clima tropical. Mas, diferentemente do litoral brasileiro, por lá as coisas funcionam bem, todo mundo é honesto e justo, porque, do contrário, é cana na certa. Miami são delícias preservadas, ou até ampliadas, agregadas ao conforto da ordem. Se houve e há brasileiros que sonham em se mudar para lá, estão esses brasileiros aptos a tal? Para quem é rico, qualquer lugar pode ser proveitoso. Mas e para quem não é? O autoexílio é solução antiga, anterior até ao slogan dos generais “ame-o ou deixe-o”, época em que o degredo não carecia de voluntarismo e, mesmo nos casos compulsórios, podia ser encarado como prêmio para um tanto de “subversivo”. Na passagem do governo Sarney para o de Collor, sair do Brasil foi a saída a que muita gente recorreu, e o sonho americano concorreu com a península Ibérica como destino preferido. É compreensível o discurso que carrega um brasileiro para fora do país. O Brasil, ou melhor, muitos brasileiros nos causam asco, e, para além da revolta e da indignação, esmorece-nos o imperativo da luta. Está certo. Os desmandos no setor público, por exemplo, aviltam nosso moral de cidadãos e contribuintes. Às vezes, o sentimento de vergonha coletiva se reverte em desilusão: “nunca se roubou tanto no Brasil; nunca nossa pátria foi tão subtraída”. Está errado. As gerações que coabitam esta terra, dos mais jovens aos idosos, devem cuidar de transferir o sonho de ver o Brasil desenvolvido, seja em termos sociais, econômicos ou científicos. Enquanto ocuparmos espaço conscientemente entre o céu e o solo brasileiros, não teremos atingido os índices de pobreza e corrupção de países escandinavos e não deixaremos nossas instituições públicas tão sólidas quanto as britânicas ou as norte-americanas. Entretanto, não podemos perder de vista jamais que somos, em aspectos gerais, um país melhor do que há dez, e muito melhor do que há 25 anos. Almejamos o salto quando nos cabe o passo. Saltos podem levar a quedas, mas o passo comedido, pé ante pé, leva-nos além. Democracia, com todos os valores cívicos que a suportam, requer zelo constante, tal como uma muda de palmeira, que deve ser regada constantemente, seja na Bahia ou na Flórida. Brasileiro de boa vontade, siga seu caminho, faça a coisa certa e não se deixe demover da tarefa de colaborar para que o Brasil cumpra seu destino. Em 2015, vá em frente, e não para Miami.

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