Presidente virou visitante

Jean-Luc Martinez testou a instituição que preside como turista e não gostou de ficar mais de duas horas na fila

iG Minas Gerais | Doreen Carvajal |

Registro. Multidão se aglutina para tirar foto do quadro mais famoso do acervo do Louvre, “Monalisa”, de Leonardo da Vinci
GUIA BESANA
Registro. Multidão se aglutina para tirar foto do quadro mais famoso do acervo do Louvre, “Monalisa”, de Leonardo da Vinci

Paris, França. O perfil do atual presidente do Museu do Louvre, Jean-Luc Martinez, é totalmente diferente do antecessor aristocrático, Henri Loyrette, filho de um advogado que convivia com patronos das artes riquíssimos, como o magnata do luxo François Pinault, e que supervisionou a expansão da instituição, com as “filiais” Louvre-Lens, no norte da França, e Abu Dhabi Louvre, marcado para abrir no fim do ano que vem.

E desde a chegada de Martinez, muitos foram à imprensa para rotulá-lo de antissocial, acusá-lo de não se sentir bem entre a elite e negligenciar os patronos ricos em uma época em que os museus franceses estão enfrentando a redução dos subsídios do governo.

O Louvre, com 2.100 empregados, receberá 102 milhões de euros (US$ 127 milhões) do Estado, mas a reforma foi financiada pela sucursal de Abu Dhabi, nos Emirados, que está pagando ao Louvre 400 milhões de euros só pelo uso do nome.

Martinez debocha das críticas, dizendo que os patrocinadores são essenciais para a estratégia do museu, mas que é evidente que seu histórico familiar influencia sua busca pelo público e seu objetivo de torná-lo mais aberto, fácil de entender e de acessar.

No ano passado resolveu testar a instituição como turista – e conta que ficou 2 horas e 50 minutos na fila, incômodo que pretende reduzir, aumentando o número de entradas de três para cinco. Com isso, permitirá ao museu controlar o tráfego de acordo com o fluxo, tornando o acesso ao saguão principal mais fácil, organizando os balcões de informações e de venda de ingressos de maneira mais lógica.

Como museu internacionalmente famoso, porém, ele admite que há limites, principalmente em relação à multidão que se aglutina ao redor da Mona Lisa para a tradicional selfie.

“Não dá para fazer milagre, mas pretendo alterar a circulação, desviando alguns dos mais de 850 mil estudantes que visitam o museu todo ano para um espaço educacional com exibições rotativas”.

Nova estratégia. Sua nova estratégia surtiu efeito imediato, principalmente entre aqueles que têm medo de se perder nas salas.

“A gente não conseguia encontrar os quadros de Michelangelo. Parecia que eu fazia parte do enredo de ‘O Código Da Vinci’”, conta Berke Erat, 24, da Turquia.Naama Barel, 27, de Israel, se movimentou usando um único caminho. “A única coisa que me chateou foi não ter feito o passeio com guia de áudio porque todas as descrições estavam em francês. Mas, tirando isso, foi incrível”.

Quando Martinez caminha pelas salas do Louvre, volta a ser o professor de arqueologia que já foi, apontando os defeitos.

“Olha isso”, diz, ao parar em frente a uma placa. “Está em inglês e com uma letra minúscula. Quem vai ler? Quem?”

Parte de seu trabalho será atrair mais visitantes franceses, cujos números vêm caindo, principalmente os jovens como Kimberly Sebas, uma estudante de moda de 18 anos que descreveu o Louvre como “labirinto”.

“Não é fácil se achar aqui. Além de ser muito grande, é complicado. Sem meu professor, não saberia nem por onde começar”, confessa.

Os especialistas elogiam a iniciativa de Martinez.

“O Louvre é uma instituição tão imensa, com um peso organizacional, político e histórico tão grande, que dirigi-lo é como movimentar um superpetroleiro”, afirma James Bradburne, que aproveitou para observar que a nova ala de arte decorativa do século XVIII é confusa porque não dá para saber a diferença entre as antiguidades e os objetos novos.

“Só por tentar mudar as coisas Jean-Luc Martinez pode ser considerado um herói”, conclui.

Números

Público. O Louvre é o museu mais visitado do mundo. Em 2013, chegou ao número impressionante de 9,3 milhões de visitas.

Origem. Em 2011, uma pesquisa revelou que a maioria dos 8,8 milhões que foram ao museu era dos Estados Unidos, seguidos do Brasil.

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