Auxílio-doença por uso de drogas cresce 60% em Minas

Especialistas fazem críticas à política de combate às drogas, que seria ‘deficiente’

iG Minas Gerais | Johnatan Castro |

Descontrole. Para especialista, mesmo o uso esporádico de drogas pode acarretar em dependência química
ALEX DE JESUS/O TEMPO
Descontrole. Para especialista, mesmo o uso esporádico de drogas pode acarretar em dependência química

O número de auxílios-doença concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por situações relacionadas ao uso de drogas vem aumentando em Minas. Em 2013, foram 8.148 benefícios, valor 60% maior do que em 2009, quando houve 4.927 afastamentos por uso de substâncias como álcool, cocaína, maconha e haxixe. Somente entre janeiro e agosto deste ano, foram concedidos 5.003 auxílios-doença no Estado. Para especialistas, os dados refletem uma política de combate às drogas deficiente, além de poucos investimentos em ações preventivas por parte das empresas.

“O Brasil é um dos poucos países da América Latina onde tem aumentado o consumo de todas as drogas. A gente atribui isso a falta de uma política de controle”, afirma a presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques. O crescimento desse tipo de caso se repete em todo país, que viu o número de auxílios-doença por uso de entorpecentes saltar 65% entre 2009 e 2013, chegando a 49.276 nesse último ano. O Brasil teve 29.866 afastamentos do tipo no primeiro semestre de 2014. Conforme o INSS, a combinação de múltiplas drogas é o principal causador de transtornos mentais e de comportamentos que provocam os afastamentos. Em seguida vem álcool, cocaína e os chamados canabinoides, que incluem maconha e haxixe. “O álcool sempre foi a droga que mais impacta o ambiente de trabalho desde 1970, e isso vem aumentando porque não tem uma política de controle e prevenção”, conta Ana Cecília. CONSUMO. Coordenador do grupo de saúde mental e psiquiatria do trabalho da Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Duílio Antero de Camargo acredita que uma maior oferta de drogas aliada ao maior poder aquisitivo da população contribuiu para o aumento do consumo. “Tem aqueles que já têm uma certa dependência das drogas e, em situação de trabalho muito estressante, acabam usando a droga como refúgio. Mas tem o indivíduo que fica limpo durante a semana e usa no fim de semana, mas a dependência vai aumentando”, explica o médico. Os especialistas criticam ainda a falta de campanhas de prevenção mais efetivas, de controle das bebidas alcoólicas, que têm livre propaganda, além da ausência de uma padronização do tratamento. “A gente tem o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Álcool e Drogas mas, infelizmente, ele não está aparelhado como deveria. O tratamento não é baseado em boas práticas. Cada Caps faz de um jeito, e isso é um problema, porque deveria ser padronizado”, avalia Ana Cecília.

Ranking Estados. Em 2014, São Paulo teve o maior número de auxílios-doença concedidos por uso de drogas (10.334), seguido por Minas (5.003), Rio Grande do Sul (3.512) e Paraná (6.622).

Saiba mais Benefício. O auxílio-doença é um direito de todo trabalhador segurado pelo INSS, que não perde o emprego ao se ausentar. Para pedir o benefício por abuso de droga, o solicitante deve ter ao menos 12 meses de contribuição e comprovar, por meio de perícia médica, que a dependência o incapacita de trabalhar. Recolhimento. A valor do benefício varia de acordo com o valor recolhido pela Previdência Social.

ONG enfrentou resistência ao tentar conscientizar empresas Na tentativa de levar informações sobre esse problema no ambiente corporativo, o presidente da ONG Defesa Social, Robert Willian, criou, em 2012, uma campanha de prevenção para empresas. A entidade, que encaminha usuários para fazer tratamento, queria promover palestras e ofertar psicólogos para identificar possíveis viciados e disponibilizar os cuidados necessários. “Visitamos algumas empresas, mas tivemos muitas dificuldades de aceitação. Elas viram isso como um gasto, e não como um investimento”, disse, ressaltando que, por isso, o projeto não vingou. Para a presidente da Abead, Ana Cecília Marques, a maioria das empresas não sabe lidar com o funcionário que apresenta problemas em decorrência de drogas. “São duas posturas. Uma é a da exclusão (demissão do funcionário). A outra é de achar que essa questão não existe”.

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