O livro de madeirite

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Sem nenhum conhecimento mais aprofundado em construção civil, sempre vi o madeirite apenas como uma junção de placas de compensado que servem como elementos auxiliares nas construções. Seja ou não equivocado esse conceito, me surpreendi agora vendo o madeirite como base para as imagens que o ilustrador e escritor Nelson Cruz nos traz em seu novo rebento literário, “O Livro do Acaso”, que chega pela editora Abacatte. Nelson, como artista nato que é, enxergou na superfície avermelhada dessa madeira, a possibilidade de aproveitamento de sua textura como fundo do cenário em que aparecem personagens percorrendo o enredo narrativo. E as frases reproduzidas nas páginas ele colecionou ao longo de alguns anos, lendo obras do Padre Antonio Vieira, de Alberto Caieiro, de Florbela Espanca, de João do Rio, de Beatriz Francisca de Assis Brandão e vários outros autores. As frases combinadas e ilustradas por Nelson remetem à descoberta do personagem que sai de uma terra adormecida e descobre a paixão e o movimento das ruas. “Pois eu agora é que vou começar a viver”, é uma das frases do livro, esta de Coelho Neto. Na apresentação do livro o autor/ilustrador conta que “os nós da madeira e as dobradiças de fita me inspiraram a criar ilustrações que acompanhassem, ao mesmo tempo, as frases e a ideia do improviso, de acaso. Um exemplo onde a ideia da imagem conduziu o texto e vice-versa”. Vem desse caminho o título de “O Livro do Acaso”. Nelson Cruz é um experiente e premiado ilustrador, que eu conheci pessoalmente no processo de divulgação do livro “No Longe dos Gerais” (editora Cosac & Naify), há uns dez anos. Na minha modesta opinião, é uma das mais belas recriações da obra de Guimarães Rosa, para o que Nelson pesquisou muito, inclusive fazendo viagens pelos caminhos do sertão que Rosa percorreu. Esse livro ficou em terceiro lugar no prêmio Jabuti de 2005, na categoria infantojuvenil. Nelson disse certa vez em uma entrevista que livros ilustrados não são apenas para crianças e adolescentes. Ele defende e exercita isso em suas obras, o que me atraiu especialmente em “No Longe dos Gerais” e o que ele volta a demonstrar agora em “O Livro do Acaso”. “Essas ingênuas ilusões de um dia”, traz um verso de Auta de Souza em uma das páginas de madeirite.

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