Meu pai agora é minha mãe

Primeira série de sucesso produzida pela Amazon, “Transparent” ganha aclamação com história de pai transexual

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Revelação. Veterano coadjuvante, Jeffrey Tambor ganha os holofotes e rouba a cena como o pai judeu que assumir a transexualidade
AMAZON / DIVULGAÇÃO
Revelação. Veterano coadjuvante, Jeffrey Tambor ganha os holofotes e rouba a cena como o pai judeu que assumir a transexualidade

No livro “Homens Difíceis”, um dos melhores registros da atual era de ouro da TV norte-americana, o autor Brett Martin defende que o boom criativo do meio é um produto feito por homens, sobre homens. No recorte que ele faz, abordando séries como “Família Soprano”, “Mad Men” e “Breaking Bad”, a afirmação faz sentido. Mas, levada em conta a grande diversidade de gênero que vem protagonizando essa história, ela acaba parecendo injusta. A maior prova disso é a recente lista de indicados à melhor série cômica no Globo de Ouro. Das cinco, quatro são criadas por mulheres e abordam facetas absolutamente diversas do universo feminino. “Girls” explora as imperfeições e a imaturidade de um grupo de jovens urbanoides e privilegiadas tentando dar certo em Nova York. “Orange Is the New Black” revela a cumplicidade e as afinidades que surgem entre um grupo de mulheres das mais diversas origens quando elas pagam pelas piores escolhas de suas vidas. E o novo hit, “Jane the Virgin”, extrai seu humor da complexa relação entre mulheres latinas modernas e sua forte herança religiosa.

Transexual. Mas o melhor estudo da complexidade feminina em 2014 foi feito pela excelente “Transparent”. Criada por Jill Solloway, a série conta a história de um pai judeu de Los Angeles (Jeffrey Tambor) que, aos 60 e poucos anos, decide se assumir como transexual – deixando de ser Mort e virando Maura. A primeira temporada, lançada ano passado no serviço de streaming da loja virtual Amazon, acompanha o impacto dessa revelação na família dele, especialmente nos três filhos que, tendo seu universo virado de cabeça para baixo, são obrigados a encarar suas frustrações e reavaliar sua própria identidade com a perigosa questão: “será que a vida que estou levando é a que eu realmente quero?”.

A quarentona Sarah (a ótima Amy Landecker), a mais velha, é a pragmática, organizadora e otimista que, frente à revelação do pai, decide abandonar o marido e os filhos e reatar o romance lésbico com uma ex-colega de faculdade, Tammy (Melora Hardin). Ali (Gaby Hoffman) é a caçula sem rumo que tem seus frágeis alicerces ainda mais abalados e resolve experimentar tudo e todos para processar a informação. E Josh (Jay Duplass), o do meio, é o produtor musical que teve um caso com a babá aos 15 anos e, desde então, é obcecado pelo amor feminino e pela ideia de construir uma família – um anseio pela estrutura que nunca teve.

Feminino. Nesse mundo em que todos adoram o feminino, Solloway (cujo pai, um psiquiatra, recentemente se assumiu trans, apesar de a série não ser autobiográfica) investiga a complexidade do que significa, e o que é necessário para, “ser mulher” hoje: ser mãe, competente, feminina, centrada, independente, forte, frágil, sexual. Mais do que isso, porém, “Transparent” é sobre a verdadeira família moderna. É uma série sobre 2014. Família nunca foi algo normal ou comum, mas agora isso se manifesta de forma bem mais... transparente.

Em uma das cenas centrais do show, uma rabina (sim, mulher, vivida por Kathryn Hahn) explica em um sermão que, no caminho entre o mar Vermelho e Canaã, a antiga geração de judeus acostumados à escravidão teve que perecer para que aqueles que chegassem à Terra Prometida fossem um novo grupo de homens livres e modernos. E é isso que “Transparent” mostra: quem ainda acha que, porque nasceu homem, alguém tem que morrer assim, ou que as pessoas têm que gostar do sexo oposto, ou que família é pai, mãe e filhos, está MUITO atrasado para a festa. Quem não abraçar a realidade e os desafios da sexualidade humana vai ficar para trás.

Um dos momentos mais realistas, desconfortavelmente instigantes e engraçados que você vai ver este ano é a cena em que Sarah explica para seus filhos, com menos de 10 anos, que o vovô agora é uma mulher. Que agora “ele” é “ela”. Não é simples, não é fácil e não é certo ou errado. Simplesmente é. E as crianças encaram o elefante com bem mais descontração que os adultos. Ou quando Shelly (Judith Light), ex-esposa de Maura, descobre que, apesar de trans, o ex-marido continua atraído por mulheres, e dispara “nós vivemos um casamento gay antes de estar na moda!”.

“Transparent” é um mapa para navegar esse admirável mundo novo, em que tudo é possível (gay, lésbica, trans, bi, crossdresser...pan) e nada é matemático. E a série não é um panfleto de como isso é perfeito e ideal. Ela é um retrato de como esse excesso de liberalismo judeu de Los Angeles – uma cidade fotografada como esse paradoxo plasticamente bucólico baseado em uma grande indústria – pode criar filhos tão disfuncionais quanto o antigo modelo opressor. E Solloway, que foi uma das roteiristas de “A Sete Palmos”, tem uma vasta experiência em destrinchar os piores demônios desses personagens nas melhores cenas da série, quando a família se reúne – ao mesmo tempo surreais e identificáveis para qualquer um. A melhor descrição de “Transparent”, aliás, é uma cruzamento de “Modern Family” e “A Sete Palmos”.

E se o resultado continua disfuncional, por que mudar? A resposta da série está na performance sutil e realista de Jeffrey Tambor – um ator que sempre viveu o pai, o chefe ou o amigo de alguém em vários filmes e séries, e tem aqui sua primeira chance de viver o “alguém”. Além de encarnar autenticamente a gradual transição de Mort para Maura, o ator expressa no rosto a angústia de seu personagem nos flashbacks antes da revelação, em contraste com sua serenidade no presente. A serenidade de quem enxerga o caos e os problemas causados por sua revelação, mas sabe que, agora que é ele mesmo, pode encarar tudo e todos.

Onde assistir A primeira temporada de “Transparent” se encontra disponível no www.amazon.com

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