Cena brasileira troca mixagem por produção própria

Aumentou a produção autoral e mais DJs estão se apresentando ao vivo, analisa o músico Pedro Zopelar sobre a técnica de executar músicas feitas na hora

iG Minas Gerais |

Para integrante do Metanol é possível viver de música eletrônica
CARLA ARAKAKI / divulgação
Para integrante do Metanol é possível viver de música eletrônica

SÃO PAULO. A música eletrônica brasileira está numa nova batida. Antes dependentes de sons alheios, músicos agora lançam discos com composições e selos próprios, e catalisam um cenário efervescente de festivais do segmento. O bom momento já chama a atenção de patrocinadores e renomados artistas e curadores internacionais. 

“Conseguimos reunir 30 artistas brasileiros de eletrônica experimental. Isso era inimaginável há cinco anos”, afirma Tathiana Lopes, organizadora do festival carioca Novas Frequências, principal evento dedicado a sonoridades de vanguarda – longe do convencional das festas.

Normalmente, os DJs nacionais tocam músicas de outros artistas conterrâneos ou internacionais, fazendo remixagens (repaginar uma música sem perder a sua base) ou sampleando (usar trechos de outras músicas). A mudança é impulsionada por uma geração de produtores, artistas e DJs com idade entre 20 e 30 anos, em sua maioria, que se reúne em coletivos para gravar suas músicas.

Esses novos selos funcionam como minigravadoras, em que os membros se revezam na produção e mixagem, por exemplo. É o caso do baiano Pedro Marighella, 35, que torna ainda mais dançantes batidas clássicas de axé com batuques africanos e bass music no projeto Som Peba.

Só em 2014, surgiram selos como Galope Discos, Quintavant, Subsubtropics, Fluxxx, UIVO e Arrastão, que somaram forças a outros nomes conhecidos no segmento, como Chippanze, Submarine, Propósito, Beatwise, MAWW, Step In, 40% Foda/Maneiríssimo, Domina e Gop Tun. Ganham força também espaços experimentais, como o S/A e Estúdio FitacrepeSP, na região Oeste, além dos projetos do experiente músico Carlos Issa em galerias de arte, como o “Pequenos Comprimidos de Onda” e “Tarde Abstrata”. No Rio, destaque para o clube Audio Rebel.

Emancipação. Assim como grande parte da recente produção cultural independente, a cena eletrônica se aproveitou da tecnologia para driblar os custos com gravações em estúdios e as barreiras impostas por grandes gravadoras. Programas auxiliam a composição e serviços como Soundcloud (importante meio online de publicação de música underground) e Bandcamp oferecem, num ritmo crescente há mais ou menos cinco anos, milhões de músicas para a pesquisa dos artistas.

Aumentou a produção autoral e mais DJs estão se apresentando ao vivo, analisa o músico Pedro Zopelar sobre a técnica de executar músicas feitas na hora. Para Akin Deckard, do coletivo e rádio Metanol, já é possível transformar a música em ofício. As mudanças, inclusive, motivam discussões sobre como capitalizar a produção autoral.

Claudio da Rocha Miranda Filho, diretor do Rio Music Conference (fórum sobre música eletrônica que acontecerá em fevereiro), avalia que o segmento precisa pensar em alternativas para que os artistas ganhem com os direitos autorais oriundos da execução pública de suas músicas, como já acontece com os outros músicos.

PARA INGLÊS OUVIR. A produção eletrônica contemporânea também chama atenção fora do país. “Fiquei impressionado de ver um festival de música avançada no Brasil como o Novas Frequências e com padrão internacional”, diz Alasdair Campbell, organizador do festival escocês Counterflows.

O evento fechou um intercâmbio inédito de artistas com o evento carioca. É o caso também do respeitado programa de DJs na internet, o inglês Boiler Room, que desde o final de 2013 mantém parceria no Brasil e intensificou as transmissões locais.

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