Perdidos e achados

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Sabe aquelas coisas inexplicáveis que acontecem de vez em quando na vida de alguém? Pois bem, aconteceu com Maria Lúcia, 25 anos, funcionária pública, um noivo, apartamento alugado e dois cachorros. Vida normalíssima e encaminhada. Até que... Trabalhando nos Correios, gostava de dar uma verificada na seção de Perdidos e Achados, na verdade, mais perdidos que achados. Aquele monte de documentos extraviados exercia nela uma forte atração, uma curiosidade prazerosa de observar rostos e nomes desconhecidos. Depois, deixava-os nas gavetas para que fossem cadastrados. Sempre havia alguém ligando na esperança de que suas identidades ou carteiras de habilitação estivessem por ali, nos Correios. E foi revolvendo documentos que ela, de repente, se viu atordoada. Em suas mãos, um tal de Jorge Fernandes Oliveira, que, com seus cabelos castanhos, nariz afinado e pele clara, causava-lhe ebulições. Nem sequer sabia dizer se era bonito, mas a atração que sentiu pela foto foi o sentimento mais forte e singular de toda a sua vida. Segurando a identidade, enfiou-a rapidamente na bolsa e, como uma ré confessa, saiu assustada do recinto. Em casa, olhou a fotografia, imaginando o dono daquele rosto expressivo e robusto. Os cabelos indisciplinados demonstravam despreocupação, o que lhe dava um quê de rebeldia – alguém que sabe aonde quer chegar e não se importa com o que pensam a seu respeito. Jorge Fernandes tinha personalidade. Isso! Examinando mais cuidadosamente, percebeu a pinta próximo ao lábio superior. Um charme!, pensou, divertida. O pedaço de camisa azul a fazia tirar conclusões precipitadas. Cruzeirense? Não, nada a ver a tonalidade. Também não lhe parecia o tipo de homem que se envolvesse com futebol, cervejas e palavras obscenas do alto de uma arquibancada. Tinha mais cara de vinho tinto, ao som de um violão. O olhar profundo lhe dava uma inegável conotação espiritual, intuitiva. Descobriu, enfim, que a magia estava ali, mais que nos olhos, no olhar. Intenso, poderoso e desconcertante. Daria tudo para ter aquele olhar cruzando com o seu – tímido, vacilante e curioso. Começou a se achar meio louca, navegando nas marés da inconsciência. Fazer o quê? Não conseguia se desvencilhar da imagem que tão desejosamente segurava. Um pedaço de papel plastificado com nomes e datas. 29 anos. Mês de abril, ariano feito ela. E a foto 3x4 amplificada, tomando forma, saindo do objeto e materializando-se ali, ao seu lado, dentro dela, somente para ela. Nasceram na mesma cidade, na capital – dois entre milhões. Mais fácil se fosse num lugarejo qualquer, com banquinhos de cimento e igreja na praça principal. Ela se aproximaria dele e lhe diria com certa timidez: “Oi, Jorge! Encontrei sua identidade perto da estação”. E ele, sorrindo aliviado: “Graças a Deus, estava louco atrás dela”. E continuou a observar a foto. Deparou-se com aquele meio sorriso que tão logo a cativou. Além de tudo, bem-humorado, pensou, divertida. Claro, ele estava querendo rir, mas a circunstância pedia expressões compenetradas. E imaginava o sorriso se completando, aberto, solto, espontâneo. E riu com ele, assim, do nada. Riu porque é divertido rir, aquela sensação gostosa de dividirem contentamentos, mesmo que o contentamento fosse pelo simples fato de estarem juntos rindo não se sabia de quê. E ela realmente começava a se preocupar, a doidice na sua cabeça já extrapolava limites, navegando num cartão-postal. Os dias passaram, e a consciência começou a martelar, que direito tinha de tomar para si um documento extraviado? Pior, criar no seu íntimo uma fantasia que, querendo ou não, afetava seu relacionamento real? O noivo percebia que havia algo... Resolveu, enfim, devolver o documento a seu titular. Com certeza, ele já devia ter uma segunda via, mas, seja como for, a carteira “encontrada” era um bom pretexto para conhecê-lo pessoalmente. Pegou o catálogo. Desanimada, constatou mais de 20 Jorges Fernandes. Conferiu endereço por endereço, por intuição eliminou alguns e separou outros. O primeiro Jorge tinha voz melosa, nada condizente com o da foto. O segundo viajava; o terceiro, um grosso: “Carteira de identidade??? O que é que você está falando aí?” Não, o “seu” Jorge certamente não era esse. E continuou a busca. Até que... “Claro! Sou eu mesmo. Onde você a encontrou?” Deus!, pensou, cheia de emoção, do jeitinho que imaginara: a voz com um quê de sensualidade, espírito alegre, extrovertido. Conferiu o endereço, assustadoramente próximo ao seu. “Deixo aí na sua casa!”, disse ela, já começando a acreditar em vidas passadas, destino e almas gêmeas. “Não é preciso. Eu busco aí, na sua!” E foi assim, desde esse dia, que duas almas até então “perdidas” finalmente se “acharam”.

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