No Dia de Ano, o Maranhão ganha alvíssaras: Flávio Dino

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DUKE
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São universais e antigos os ritos de passagem dos rituais do transcurso do ano velho para o Ano Novo, e cada povo celebra conforme crenças singulares perdidas no tempo. Sou fascinada com os ritos de passagem que marcam a chegada do Ano Novo – lendas, crendices, simpatias, superstições e queima de fogos, que afastam os espíritos indesejados e encerram tradições do âmbito dos desejos em interfaces com o sobrenatural, do fazer promessas, muito mais do que firmar propósitos do tipo: “Para o ano...”, que no palestinês da gema de minha nascença quer dizer “no ano vindouro”, justamente no “próximo ano”. Refletindo sobre o costume do meu sertão maranhense de “pagar alvíssaras” no primeiro dia do ano, fiquei com uma dúvida, digamos que de cunho filosófico, ei-la: Flávio Dino, ao tomar posse em 1º de janeiro de 2015 como governador, é, em si, alvíssaras para o Maranhão e, ao mesmo tempo, merece recebê-las, já que “alvíssaras é prêmio que se dá a quem traz boas novidades ou entrega coisa perdida ao dono”? Fica a especulação. Ao ser diplomado governador, disse: “Este diploma é impregnado de vida, cada letra dele é um símbolo do nome de cada maranhense... Autenticamente sinto o peso das palavras que pronuncio e sinto o peso das tarefas que nos foram incumbidas. Junto com elas, sinto também coragem para enfrentar os desafios e pôr fim às desigualdades” (19.12.2014). As expectativas sobre o governo Flávio Dino são monumentais, mas seria um erro descambarmos para o messianismo. O sentimento é que, ao abolir pelo voto popular os miasmas de um passado de meio século de exploração e descuidos, tudo mudará num passe de mágica. Não é bem assim. O Maranhão, que com a eleição de Flávio Dino será devolvido ao povo em frangalhos, precisa ser reconstruído e refundado para que seu povo possa adquirir cidadania plena. No papel reservado aos movimentos sociais, é crucial a não dispersão e a não cooptação, pois “não há almoço de graça”, governo não dá nada a ninguém, e direito se conquista na luta. Há anos escrevi uma crônica intitulada “Pague minhas alvíssaras”, que “era o que a gente dizia no primeiro dia do ano para as primeiras pessoas muito próximas, parentas ou amigas – não valia para quem morava na mesma casa –, que víamos, quando crianças, lá na Palestina, povoado onde nasci, hoje Graça Aranha”, onde o primeiro dia do Ano Novo era chamado “Dia de Ano”. Também não era dia de Natal, mas “Dia do Nascimento”! Lá, as crianças não ganhavam presentes no Natal, mas alvíssaras no Ano Novo. Quase sempre um doce ou um mimo pra enfeitar o cabelo, a roupa. Ou um perfume. E por que alvíssaras? A origem da tradição de pagar alvíssaras, a mais remota que encontrei, é que era um costume árabe como pagamento a uma notícia boa referente ao fim de uma guerra. Quem portava a boa nova chegava gritando “alvíssaras, alvíssaras”... Mas só dava a notícia após receber a recompensa! A aldeia de Santa Margarida, freguesia portuguesa de Idanha-a-Nova, mantém a tradição de alvíssaras na madrugada do Sábado de Aleluia, em concorrida caminhada ao som de violas, guitarras e dos tradicionais adufes, que se dirige à Senhora da Granja, à Senhora das Dores e à casa do vigário, onde entoam os seguintes versos: “Acorde, senhor vigário,/ Que já dá o sol na cruz:/ Venha dar as boas festas/ Ao coração de Jesus”, e ganham pão, vinho e frutos secos – são as alvíssaras! Deixo, no abraço apertado em minha neta Clarinha, que hoje faz 5 anos, os votos de um alvissareiro 2015 para todo mundo.

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