Cinema tipo exportação

Dependência do mercado internacional de Hollywood e domínio das comédias no Brasil marcaram o ano

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

A revelação Chris Pratt
Disney / Divulgação
A revelação Chris Pratt

Uma das notícias de maior repercussão no mundo do cinema em 2014 veio no final do ano. Um grupo de hackers, a serviço da Coreia do Norte segundo o FBI, invadiu a rede de computadores da Sony e passou a vazar informações confidenciais (e constrangedoras) do estúdio, demandando que “A Entrevista” – sátira que retrata o assassinato do presidente do país, Kim Jong-un, por dois jornalistas vividos por Seth Rogen e James Franco – não fosse lançado nos cinemas.  

No fim das contas, o longa acabou vendo a luz do dia ou, melhor dizendo, a escuridão das salas. A situação, porém, serviu como uma alegoria quase surrealista, um tanto sórdida e assustadora, da realidade que já vinha se firmando há algum tempo e que 2014 cristalizou para o cinema norte-americano: o poder cada vez mais determinante do mercado internacional em Hollywood.

Modelo de negócios baseado em produções de orçamento estratosférico, com verbas de marketing à altura, que dependem de atingir todo e qualquer espectador, os blockbusters encontraram resistência ao mais do mesmo nos EUA neste ano. Com uma queda de mais de 5% na arrecadação das bilheterias no país, os estúdios dependem cada vez mais de agradar os mercados que ainda trazem lucro a suas estripulias faraônicas – como o Japão, México, Brasil e, especialmente, a China. O ato final de “Transformers: A Era da Extinção” não se passa todo em Pequim devido ao subconsciente comunista de Michael Bay.

Um dos melhores exemplos disso é a Fox, que teve um dos melhores desempenhos entre os grandes estúdios em 2014. O estúdio viu longas como “Como Treinar seu Dragão 2”, “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” e “Planeta dos Macacos: O Confronto” receberem elogios rasgados da crítica, raros para o gênero. E ainda assim, nenhum deles teria pagado seus orçamentos de produção e marketing com a arrecadação norte-americana – o lucro veio de fora.

As únicas exceções, no caso da Fox, são “Garota Exemplar” e “A Culpa É das Estrelas” – duas grandes anomalias em Hollywood hoje: produções modestas protagonizadas por mulheres. “A Culpa” – um dos maiores fenômenos do ano, com orçamento de US$ 12 milhões e bilheteria de mais de US$ 300 milhões – revelou, junto com “Divergente”, a nova estrela norte-americana, Shailene Woodley, que teria levado o público às lágrimas mesmo que o roteiro não repetisse a cada cinco minutos que ela tinha câncer.

Se Woodley foi coroada a rainha do baile, seu rei sem dúvida nenhuma foi Chris Pratt. Emprestando sua voz ao protagonista de “Uma Aventura LEGO” e mostrando um tanquinho suado em “Guardiões da Galáxia”, o ator do seriado “Parks and Recreation” conquistou o público com sua mistura de Harrison Ford e Robin Williams e vai estrelar no ano que vem “Jurassic World”, novo capítulo da saga dos dinossauros criados por Steven Spielberg.

“Guardiões da Galáxia”, que disputa o título de maior bilheteria do ano com “Jogos Vorazes: A Esperança - Parte I”, por sinal, foi a cereja no topo do bolo da Disney. A estratégia do estúdio de apostar apenas em franquias e marcas pré-existentes, capitaneadas pelos heróis da Marvel, colocou “Capitão América 2: O Soldado Invernal” e “Malévola” entre as dez maiores bilheterias do ano. O resultado fez a Marvel anunciar mais 19 filmes até 2020, porque, como bem disse o historiador e crítico norte-americano Mark Harris, “a Disney espera que seu gosto em 2020 não tenha mudado absolutamente nada em relação a hoje”.

|Nacional. E nós brasileiros não podemos atirar a primeira pedra. A criatividade do cinema nacional não anda muito melhor, com as globochanchadas dominando as bilheterias e o resto das produções brigando pelas migalhas. A filmografia brasileira em 2014 pode ser perfeitamente exemplificada por dois nomes: Leandro Hassum, que estrelou nada menos que quatro comédias em um ano (“Até que a Sorte nos Separe 2”, “Vestido pra Casar”, “O Candidato Honesto” e “Os Caras de Pau em o Misterioso Roubo do Anel”), todas sucessos consideráveis de bilheteria; e Irandhir Santos, que estrelou seis filmes, alguns deles ótimos, como “Obra”, “Ausência” e “A História da Eternidade”, que, no meio da gritaria ensurdecedora de blockbusters nacionais e internacionais dominando as salas, não conseguiram nem estrear ainda.

Norma. A situação é tal que a Ancine baixou uma norma no fim do ano, limitando a estreia de um único filme a 35% das salas de um mesmo complexo, após “Jogos Vorazes” ocupar 50% do parque exibidor nacional. A outra grande ação da Agência em 2014 foi o programa Brasil de Todas as Telas. O investimento de R$ 1,2 bilhão, aplicado em doses homeopáticas em editais e seleções, vem buscando incentivar a diversidade no audiovisual nacional em laboratórios de roteiro, núcleos criativos e, principalmente, no surgimento de novos nomes e vozes na produção de séries de TV. O resultado, porém, só deve aparecer a médio prazo.

Mas nem só de blockbusters e números viveu o cinema em 2014. Se muitos dos longas do festival de Cannes ainda não deram as caras por aqui – somente o argentino “Relatos Selvagens” estreou e se tornou um dos fenômenos do circuito de arte do ano –, a Berlinale compensou enviando títulos como “Amar, Beber e Cantar”, “Boyhood”, “O Grande Hotel Budapeste” e “Praia do Futuro” (veja as melhores estreias de 2014 em Belo Horizonte na página 3).

Este último é ainda um grande exemplo da forte presença da temática LGBT no cinema nacional em 2014, que ainda entregou filmes como “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e “Castanha”. Além de boas respostas ao conservadorismo no país, os longas deixam claro que a Coreia do Norte pode até estar preocupada com comédias besteirol, mas a verdadeira subversão está acontecendo nos pequenos filmes, no cinema que grandes estúdios e investidores nem sonham em realizar.

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