Arte marginal dentro da galeria

Galeria Chimera Cultural abre as portas para expor telas do morador de rua Alex Rosa e outros dez artistas mineiros

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

A quatro mãos. Warley Desali interferiu em três trabalhos do morador de rua, como a pintura desta embarcação, exposta na Chimera Cultural
AlexRosa
A quatro mãos. Warley Desali interferiu em três trabalhos do morador de rua, como a pintura desta embarcação, exposta na Chimera Cultural

Antes de ser morador de rua, Alex Rosa é artista. O que condiciona isso são as telas que há pelo menos sete anos ele carrega embaixo do braço pelas calçadas do bairro Floresta, mais especificamente pela avenida do Contorno, nos arredores das ruas Itajubá e Pouso Alegre. Descoberto há dois anos pelo artista plástico Warley Desali, idealizador da galeria Piolho Nababo, o sem teto praticamente invisível aos olhos das multidões desatentas agora ocupa um espaço especial da recém-inaugurada galeria Chimera Cultural, na Savassi, ao lado de mais dez artistas mineiros que resolveram requalificar o lugar da arte marginal inspirados na exposição “Alex Rosa: O Inventor de Formas”.

Sem revelar idade, a possível existência de parentes ou naturalidade, o morador de rua Alex Rosa passa a maior parte do dia pintando obras que são vendidas em variações de R$ 5 a R$ 20, mas com preço negociável de acordo com a necessidade de sobrevivência do artista. Ou seja: uma boa pechincha já garante um quadro único ao comprador. Mesmo com quase uma década de trabalho na rua, em uma espécie de ateliê a céu aberto, as telas de Alex Rosa vieram à tona depois que os amigos Rodrigo Naves e Paulo Herkenhoff aguçaram a curiosidade de Desali ao lhe contar que um cara sem teto pintava coisas legais no meio da rua. A ideia é similar à galeria independente Piolho Nababo, situada no edifício Arcângelo Maletta, e que ganhou reconhecimento por seus leilões de arte pautados pela bagatela de R$ 1,99. “Eu e o Rosa tivemos contato há dois anos por essa afinidade mesmo, comprei várias coisas dele. Já tentei fazer perguntas sobre sua vida, mas ele é muito misterioso, de pouca conversa, às vezes canta enquanto pinta e só. E ele produz muito e vende tudo, não guarda trabalho. Ele vai baixando o preço, se for o caso, às vezes doa em troca de tintas, que também são doadas”, explica Desali, que assina a curadoria da exposição a pedido de um colecionador identificado apenas como Joseph Vagin, da University Of The Arts London, que prefere não aparecer.

Além de se dedicar à pintura para sobreviver ao invés de se render à mendicância, o que chama a atenção nas telas de Alex Rosa é o conceito de memória que ele resgata a partir das próprias experiências em andanças pelas ruas de Belo Horizonte. A dicotomia entre a arquitetura de casas que parecem sonhos distantes para ele com a violência marcada em sua história de vida nas ruas é contrastada entre cores vivas e traços quase infantis, que remetem a uma linguagem crua e dura. “Ele tem um trabalho de memória muito forte. A arquitetura faz muito sua cabeça, assim como a violência. Ainda não sei de onde vem seu gosto por embarcações, mas são retratadas de forma intensa”, diz Desali.

OUTROS ARTISTAS. Além de seis telas de Alex Rosa – sendo três em parceria com Desali –, a exposição na galeria Chimera Cultural também vai reunir pelo menos duas obras de outros dez artistas mineiros, todas inspiradas no trabalho do morador de rua. Entre os participantes estão Mario Rufino, Marconi Marques, Flávio CRO, Tenesmo, Guilherme Bita, Manuel Carvalho, Barbara Damasi, Randolpho Lamonier e Bill, além do próprio Desali. “É uma homenagem à arte de rua, dos grafiteiros, lambe-lambes e outros artistas marginais, que agora começaram a ter espaço em galerias para divulgar seus trabalhos além das ruas”, diz o jornalista Alberto Hermanny Filho, responsável pela Chimera Cultural.

Agenda

O QUE. “Alex Rosa: O Inventor de Formas”

ONDE. Chimera Cultural (av. Cristóvão Colombo, 361, Funcionários)

QUANDO. De 19 de dezembro até 19 de fevereiro de 2015

QUANTO. A entrada é gratuita

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