Sem chorar as mágoas daquilo que já passou Ex-Sonic Youth retoma trabalho solo com o recém-lançado “The Best Day” Thurston Moore

Ex-Sonic Youth retoma trabalho solo com o recém-lançado “The Best Day”

iG Minas Gerais | fábio corrêa |

Término. Thurston Moore se divorciou da esposa e companheira de banda, Kim Gordon, em 2011
Jose Fernandes
Término. Thurston Moore se divorciou da esposa e companheira de banda, Kim Gordon, em 2011

Depois do divórcio com Kim Gordon e a dissolução, ou melhor, o “hiato forçado” do Sonic Youth, o guitarrista Thurston Moore, 56, teria motivos de sobra para estar em frangalhos. Não para menos: foram três décadas e 15 álbuns de estúdio junto da baixista, em uma união que levou o rock alternativo aos limites do vanguardismo. Em 2011, porém, o matrimônio degringolou, e o lógico seria que a fossa se refletisse na música de Moore, um compositor mais que acostumado a colocar sua profundidade em dissonâncias abissais.

Justamente por isso, o novo trabalho solo do guitarrista surpreende já no título. Lançado recentemente, “The Best Day” mostra que o divórcio, pelo menos para ele, está mais que superado. São águas passadas nas quais Thurston Moore navega com a liberdade de retornar as raízes, com o vigor de um cinquentão que redescobre os prazeres da vida. “Aqui está um homem que fez de tudo”, ele deixa bem claro na faixa-título. “Você sabe que ele quer te levar pra casa/Aqui está um homem com prazer pela vida”.

São 50 minutos de recado direto para quem temeu pelo fim da essência do Sonic Youth, que vinha atingindo um refinamento quase ortodoxo na última década – depois de períodos de intensa desconstrução sonora empreendida entre 1983 e 2000. Está tudo lá: desde a crueza punk, passando pelas linhas hipnóticas de guitarra, até os ruídos impressionistas equilibrados com os melódicos refrões – um produto indie completo. Em oito composições, o disco traz novamente à tona as influências básicas de Thurston Moore: Patti Smith, Television, Lou Reed e Yoko Ono, instituições musicais que ajudaram a criar a paisagem artística da Nova York pós-1970 – berço do Sonic Youth.

Curioso é que, para isso, o nova-iorquino tenha se mudado para Londres, onde recrutou a baixista Debbie Googe (My Bloody Valentine e Primal Scream) e o guitarrista James Sedwards (Nought). Além dos dois britânicos, Thurston Moore trouxe o conterrâneo Steve Shelley, baterista que o acompanhou no Sonic Youth. O resultado é uma sonoridade que mistura a anarquia urbanoide com o groove reto do puro rock ‘n’ roll, o que faz com que “The Best Day” revigore até o mais inconsolável órfão da antiga banda de Moore.

Sequência. Quarto trabalho inteiramente solo do guitarrista, “The Best Day” se distingue da melancolia de seu antecessor, “Demolished Thoughts”, de 2011, que mais parecia uma tentativa de salvar um casamento à beira de um colapso. Inclusive, os conflitos ficaram evidentes em 2009, no Brasil, quando Thurston teve uma crise de ciúmes depois de Caetano Veloso ter rasgado elogios a Kim Gordon.

Diferentemente do trabalho anterior, “The Best Day” é vigoroso, decidido e cru. Soa, assim, como uma confirmação de que o desapego está completo. “Destrua as coisas de desejo mundano”, Thurston avisa logo na faixa de abertura, “Speak to the Wild”. E segue, num otimismo que é fruto da experiência de quem já se livrou de magoas passadas: “Não deixe a escuridão fazer você se perder”.

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