Festa estranha e muitas estreias

Destaques do ano ficam para a programação inchada dos 20 anos de FIT e a quantidade de novos trabalhos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Infantil. ZAP 18 investe no público infantojuvenil com a estreia de “O Gol Não Valeu”
thiago macedo/divulgação
Infantil. ZAP 18 investe no público infantojuvenil com a estreia de “O Gol Não Valeu”

Para quem faz e/ou acompanha a cena teatral de Belo Horizonte, todo ano par é marcado pela expectativa para que chegue logo o inverno, pois é lá, em julho ou agosto, que acontece o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT - BH). Em 2014, talvez, a expectativa fosse ainda maior, já que o festival, um dos mais antigos do gênero no país, completaria seus 20 anos. A Fundação Municipal de Cultura prometeu o “maior FIT da história” e investiu em números.

Mas basta um olhar atento para compreender que qualidade e quantidade não são sinônimos, principalmente quando se fala em teatro. Com uma programação inchada – repleta de grupos locais – o festival perdeu uma de suas vocações mais interessantes: trazer à cidade a vanguarda do teatro internacional. Pior, o FIT 2014, na concepção de seus organizadores, seria uma oportunidade para os artistas locais irem para fora do país, pois haveria um catálogo impresso das produções locais (que nunca ficou pronto) e uma rodada de negócios com programadores de vários festivais. Assim, espetáculos que já tinham cumprido uma carreira, digamos, “razoável” na cidade, com temporadas e apresentações, foram apresentados ao público, como parte da programação. Não que a cena da cidade não mereça ser destacada, mas era justamente isso que acontecia em edições anteriores: o festival lançava luz sobre cinco ou seis espetáculos, no máximo, para destacar, por meio de uma seletiva bastante criteriosa, o que de melhor havia na cena teatral de Belo Horizonte.

Justiça seja feita, não se pode dizer que o festival (com uma equipe inédita à sua frente: coordenado por Cássio Pinheiro e com Jefférson da Fonseca, Leri Faria e Geraldo Peninha, como curadores) se equivocou em toda sua programação. Acertou ao trazer o Berliner Ensemble pela primeira vez à cidade, com “Hamlet”. Os espanhóis do “Matéria-Prima”, o argentino “Emília” e o divertido “Es Sagt Nichts, Das Sogenannte Draussen” foram muito bem recebidos, mas é notório que o FIT merecia uma festa de aniversário mais caprichada. (Por falta de recursos, não houve nem o tradicional Ponto de Encontro do Festival, sediado no Parque Municipal).

Ano de estreias. Se o FIT ficou aquém das expectativas, o mesmo não pode ser dito da efervescente produção dos grupos locais. Foram várias estreias em 2014. A grande novidade, talvez, seja “Dente de Leão”, primeiro trabalho do Espanca! depois da saída de Grace Passô, conhecida pelo lirismo de suas direções e principalmente de seus textos, repletos de metáforas ou inteiras alegorias para falar de coisas mundanas, dentre outros temas. Até então, Passô era responsável por todos os textos encenados pelo grupo, com exceção de “O Líquido Tátil” – dirigido e escrito pelo argentino Daniel Veronese.

“Em Dente de Leão”, o Espanca! aposta em um texto de Assis Benevenuto, ator, dramaturgo e integrante do Quatroloscinco, para falar de relações estabelecidas dentro de uma escola. Mais uma vez, o grupo recorreu aos parceiros. Marcelo Castro assumiu sua primeira direção.

Já neste fim do ano, o Galpão estreou “De Tempo Somos”, espetáculo que faz um apanhado da vasta relação do grupo com a música e que se organiza num formato de sarau. Mais à vontade, os atores visitam a memória do grupo por meio de várias canções, que se tornaram clássicos. Outra novidade do espetáculo é a primeira direção feminina feita por duas atrizes do próprio Galpão (o coletivo é reconhecidamente um grupo de atores): Lydia Del Picchia e Simone Ordones. Ainda no campo das novidades, o grupo aposta na direção musical, com arranjos novos também, do jovem Luiz Rocha, que está com o grupo desde “Os Gigantes da Montanha”.

Na seara das estreias, ninguém supera a produção da Primeira Campainha, com dois espetáculos no decorrer do ano. Primeiro, “Isso é Para Dor” e depois, dentro do projeto Pé na Rua, do Galpão Cine Horto, “À Tardinha no Ocidente”, ambas com direção de Byron O’Neill. Destaque ainda para as estreias de “O Gol Não Valeu”, da ZAP 18, espetáculo infantojuvenil que versa sobre um menino apaixonado pelo futebol e a turbulenta relação que a paixão rende à sua família. E vale ressaltar “Humor”, do Quatroloscinco. O grupo aliás, fez uma mostra inédita de seu repertório de quatro espetáculos, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, durante o mês de novembro.

2015. Logo no início do ano, o público poderá conferir duas estreias importantes. “Noturno”, do grupo Teatro Invertido, estreia em janeiro. Com direção de Yara de Novaes, o Oficinão do Galpão Cine Horto estreia versão musical de “Madame Satã”, no mesmo mês.

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