Desigualdade é similar à de países como Gana, na África

Desfavorecidos trabalham muito e morrem precocemente

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |


Vanda de Souza tem dificuldades para levar a mãe ao hospital
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Vanda de Souza tem dificuldades para levar a mãe ao hospital

A distância entre a vila Bom Destino, em Santa Luzia, na região metropolitana, e o centro da capital é de cerca de 20 km, mas um abismo separa a comunidade do avanço encontrado na outra ponta do percurso. O bairro está entre os oito com o menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) da região metropolitana, e todos são de Santa Luzia. Eles reúnem 16,3 mil habitantes, que vivem, na maioria, predestinados a estudar pouco, trabalhar muito, receber baixos salários e morrer cedo.

Em escala que vai de 0 a 1 (do pior para o melhor, respectivamente), o IDHM nesses locais é de 0,597, o que corresponde ao nível “baixo” de desenvolvimento humano – pior que isso, só o “muito baixo”. Valores aproximados aos dos bairros de Santa Luzia se repetem em outras partes do Brasil e em países marcados pela desigualdade, como Gana (0,573), na África, e Índia (0,586), na Ásia.

“O que puxa o IDHM para baixo é uma conjunção de fatores: educação ruim, renda domiciliar baixa e pouca esperança de vida”, disse o pesquisador da Fundação João Pinheiro (FJP), Fernando Prates, um dos organizadores do Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil.

Na região metropolitana de Belo Horizonte, o topo do ranking (melhor IDHM) ficou para os bairros Santo Agostinho e Lourdes, na região Centro-Sul da capital, que beirou o 1 (0,955), seguido de bairros da mesma região e também localizados em Nova Lima e Brumadinho.

Já as oito Unidades de Desenvolvimento Humanos (UDHs) – um ou mais bairros – de Santa Luzia (veja infográfico abaixo) não só estão na outra ponta da lista, como também são as únicas a se enquadrarem no “nível baixo”.

Na prática. Isso significa, entre outros fatores, que por lá a população chega a viver, em média, 12 anos a menos do que a dos bairros com maior IDHM e até sete anos a menos em comparação com toda Belo Horizonte. A esperança de vida ao nascer para os habitantes desses oito bairros de Santa Luzia é de 69,2 anos, contra 81,9 no Santo Agostinho e Lourdes e 76,4 na capital.

A mortalidade infantil também é outro fator preocupante. “A taxa é de 26 mortes por mil nascidos vivos, o que ainda está acima da meta do milênio (definida pela Organização das Nações Unidas – ONU), que é de 17 por mil”, explicou Prates. A taxa de mortalidade dos bairros de Santa Luzia é o dobro da apresentada na capital (13). “Se há mortalidade infantil alta, é sinal de falhas no atendimento de pré-natal e na atenção de saúde básica”, avaliou o mestre em demografia e doutor em sociologia André Junqueira Caetano.

Os sobreviventes nessa luta pela vida sabem bem, desde pequenos, o que falta no bairro e os desafios que terão de enfrentar. Sem estrutura, muitas vezes crianças e adolescentes jogam futebol nas ruas ou inventam outras brincadeiras com o que encontram pelo caminho, como caixa de papelão. “A escola tem quadra, mas a gente não pode usar”, disse Afonso Marques, 16.

Quando a reportagem pergunta como é viver na vila Bom Destino, Marques e os amigos de pelada falam sem parar, todos ao mesmo tempo, tamanha a revolta. “Aqui não tem nada, só entulho na rua que a gente mesmo tem que retirar porque a prefeitura não recolhe”, concluiu.

Indicadores

Fontes. O atlas que traz os IDHMs foi feito pela Fundação João Pinheiro e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. A versão lançada mês passado tem dados por regiões metropolitanas e respectivos bairros.

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