Um ano em que a música teve de aprender a rebolar

Queda do mainstream e amadurecimento dos independentes ficou mais evidente em 2014

iG Minas Gerais | Fábio corrêa |

Cria. Banda Cachorro Grande lançou o álbum “Costa do Marfim”, que teve produção do “underground” Edu K
Alessandra Levtchenko/Divulgação
Cria. Banda Cachorro Grande lançou o álbum “Costa do Marfim”, que teve produção do “underground” Edu K

Um ano movimentado, com dificuldades, no qual a música teve de rebolar para conquistar o seu espaço ao sol. Em 2014, os obstáculos foram pontuais, com a Copa do Mundo atraindo a maior parte dos patrocínios normalmente destinados a eventos, as eleições concentrando verbas e exposição na mídia e, para tornar o quadro ainda mais complicado, uma conjuntura econômica nada favorável. Mesmo assim, o ano não foi perdido para a música. Com habilidade, artistas e produtores conseguiram reunir forças, promovendo shows com nomes internacionais e produzindo discos de qualidade.

“Este ano foi um bom teste para uma nova era da música que está vindo por aí”, avalia o crítico musical Lúcio Ribeiro. “Vejo com bons olhos, porque foi muito movimentado num período muito difícil. Acho que, se fosse outra época, passaríamos por dificuldades. Apesar de tudo, teve bastante festival, bastante festa, bastante show pequeno”, observa o jornalista.

“Foi muito caótico”, comenta o produtor e músico Edu K. “Acabou sendo realmente difícil para todo mundo, não sei se tem uma conjuntura astral, mas temos os fatos: Copa do Mundo, eleições, e, no meio disso tudo, Carnaval, Natal, Ano Novo... Eu realmente acho que 2014 é um ano que vai começar depois do Carnaval de 2015”, critica o gaúcho que, apesar dos problemas, produziu novos trabalhos de artistas como a banda Cachorro Grande.

Entretanto, a criatividade inerente ao metiê musical reagiu sedimentando uma tendência que, a cada ano, fica mais evidente: o colapso do mainstream. A popularização das formas de produção de música e de divulgação dos trabalhos vêm equilibrando, aos poucos, o alcance e a qualidade dos artistas independentes em relação àqueles que possuem contratos com grandes gravadoras. Ademais, as dificuldades econômicas, tanto em linhas gerais quanto no desgaste das formas tradicionais de capitalização de produtos, como CDs e DVDs, colocaram os próprios grandes conglomerados de entretenimento em desvantagem. “Os destaques foram muitos, em 2014, mas nenhum deles, internacional ou nacional, passou pelo mainstream”, observa o crítico Régis Tadeu, que coloca os paulistas do Sandália de Prata entre os principais. “Hoje, quem quiser saber o que está rolando de interessante na música brasileira, por exemplo, tem de desligar a TV e o rádio. O problema é que o mainstream está dominado por um punhado de artistas completamente sem talento”, completa Tadeu.

Em contraposição, o amadurecimento das bandas independentes tem tornado a cena mais frutífera, opina Lúcio Ribeiro. “Ter uma banda parou de ser um hobby de moleque”, analisa o jornalista. “As pessoas querem ir longe e procuram formas de concretizar isso: mandam gravar em Londres, masterizam em Nova York, marcam shows na Europa, se alinham a marcas. Não digo que é um pensamento novo, mas que ficou estabelecido”. Entre os artistas que seguiram esse caminho, Ribeiro cita os goianos do Boogarins e a paulistana Aldo.

Ruptura. Edu K, que sempre se notabilizou por trabalhos independentes, define os novos tempos de forma contundente. “Essa ‘queda do Império Romano’ do mainstream proporcionou que surgisse um novo underground, mais forte e organizado”, define o gaúcho. Porém, para que a mudança aconteça integralmente, ele acredita que deve haver uma ruptura na forma de compreender o sistema que rege o mundo da música. “Vejo que a gente tem essas novas vias, mas medimos muito as coisas com padrões arcaicos, ainda de outra época”, opina. “O underground se contenta com pouco. Porém, com tudo isso que a gente tem na mão, podemos tornar o underground um novo mainstream”, vislumbra o produtor, afirmando que as mudanças devem ser estruturais, e não ideológicas. “Um dos problemas que tenho hoje em dia com essa facilidade de comunicação é que toda essa informação vai um pouco além do que as pessoas são capazes de absorver”. Assim, as extensas bibliotecas se tornam pouco úteis quando os usuários não conseguem achar caminhos para chegar até elas.

“A música está muito esfacelada em conceitos”, comenta Lúcio Ribeiro. Para ele, o extenso alcance é possibilitado por plataformas como Rdio, Pandora e Spotify. “A abrangência é inesgotável, e os estilos podem conviver tranquilamente, sem se sobrepor. Por isso eu não acho que seja possível um gênero surgir e chamar toda a tenção, como aconteceu o grunge com o rádio e a MTV nos anos 90”, prevê o crítico musical. “Não precisa explodir porque todos estão bem localizados”, conclui o jornalista.

Para Régis Tadeu, existe acomodação por parte do público, que impede a total fruição do que está sendo feito na música. “A música brasileira precisa ser redescoberta pelas pessoas, o problema é que elas andam muito preguiçosas”, critica. “A internet é uma ferramenta maravilhosa, mas as pessoas precisam para de usá-la só para discutir bobagens”, provoca Tadeu.

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