Menos invertidos que nunca

Com 10 anos de estrada, Grupo Teatro Invertido estreia, em janeiro, seu primeiro espetáculo em um palco italiano

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Quintal. Cenografia de Ed Andrade propõe um gramado com piscina onde quase toda a ação se passa
Guto Muniz
Quintal. Cenografia de Ed Andrade propõe um gramado com piscina onde quase toda a ação se passa

O Invertido que vem de seu nome sempre identificou um dos grupos mais profícuos de Belo Horizonte, em sua atuação de dez anos, como um coletivo que singrava por águas menos cristalinas e buscava processos criativos além do óbvio na concepção de seus espetáculos. Agora, no entanto, seus integrantes se emaranham em uma nova empreitada recorrendo a soluções cênicas não tão “invertidas” e preparam a estreia de “Noturno”, para 18 de janeiro.

“Acho que essa é a primeira vez que pisamos em um palco”, se toca o ator Leonardo Lessa, em bate-papo após ensaio aberto ocorrido no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil. É bom que se situe a trajetória do grupo para que se entenda a perplexidade de Lessa e as novidades que o novo trabalho representa. O Teatro Invertido sempre apostou em processos criativos que tinham como base o processo colaborativo e se apresentava em espaços alternativos. No processo colaborativo, cada um exerce a função que lhe é destinada, mas há uma margem de intervenção e participação grande de cada profissional envolvido na criação.

Outro aspecto formal determinante – e, talvez, a grande inversão presente em “Noturno” – é sua dramaturgia, que foi entregue pronta para ser montada, assinada por Sara Pinheiro, jovem e promissora artista que também é autora de “S/Título, Óleo Sobre Tela”, trabalho da Companhia do Chá, da qual faz parte. Sara também é parceira de Vinícius Souza, no projeto Janela de Dramaturgia, que prepara sua quarta edição.

“Eles têm esse hábito de defender com muita intensidade aquilo que falam em cena”, comenta Yara de Novaes, que divide a direção com Mônica Ribeiro. Aliás, essa é uma característica forte e recorrente dos trabalhos anteriores do Invertido, a dramaturgia construída em processo, com fortíssima influência do que é produzido nas improvisações propostas pelos atores. “Estávamos à procura de um texto que falasse de nosso tempo, da nossa geração e começamos a ler autores latino-americanos. Daí, a Yara nos disse que sempre escutava da crescente produção de dramaturgia na cidade e perguntou ‘cadê?’”, relembra Lessa.

“Noturno” conta a história de uma turma de amigos que, durante um almoço improvisado de domingo, debatem sobre vários assuntos, que vão desde o futuro dos filhos que eles terão ou não (e o porquê de se ter filho num mundo como o vivido por eles), passando pela contaminação da água, o iminente fim mundo, dali a 15, 20 ou 30 anos, até chegarem em assuntos particulares, como a separação recente de um deles e a mulher que o teria sacaneado.

Com a agilidade de uma “timeline” das redes sociais, o grande mérito do texto é conseguir estabelecer esse trânsito entre assuntos frívolos e outros “maiores”, expondo as contradições tão presentes na vida de qualquer pessoa. Por outro lado, há uma tênue e delicada possibilidade de não se aprofundar em temática alguma e soar superficial por demais.

“Independente do exercício de desenvolvimento de linguagem e da pesquisa do grupo e até mesmo dessa escolha de fazer um texto pronto com direção da Yara e Mônica, sempre existiu uma preocupação primeira: o que a gente queria dizer e como a gente iria dizer isso. Por mais que a gente ache legal estar trabalhando com o texto de uma dramaturga mineira, existe essa preocupação, que tem a ver talvez com o quase ideal, um princípio de trabalho do grupo: temáticas contemporâneas, que tenham uma perspectiva social, e não queríamos abrir mão disso, independente de qual caminho a gente estava escolhendo para nossa pesquisa artística”, revela Lessa.

Caberá aos atores e às duas diretoras, o tempo de maturação do trabalho – principalmente nos dias que ainda faltam para sua estreia e depois dela, nas apresentações, no contato direto com o público – para entender como transitar por tantos assuntos lhes dando a medida exata para que não se caia no esvaziamento e no risco de “Noturno” se transformar em apenas uma paisagem.

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