Instrumentista da rádio dos anos 40 tem obra resgatada

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Desconhecido, compositor já foi gravado por Paulinho da Viola
Álbum de família / Arquivo pes
Desconhecido, compositor já foi gravado por Paulinho da Viola

Rio de Janeiro. Valzinho – violonista, compositor, artista criativo para quem Radamés Gnattali reivindicava lugar entre os “precursores da bossa nova” – certamente não foi tão lembrado como merecia, neste Natal em que comemoraria, ontem, seu centenário de nascimento.

Em sua época, décadas de 1930 e 40, era considerado uma espécie de “músico dos músicos”, mais admirado pelos colegas do que conhecido do público. Anos depois, já aposentado, encantou Tom Jobim com as harmonias “repletas de surpresas e sutilezas” de seu “Doce Veneno”, samba-canção gravado por Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Jamelão, Jards Macalé, Maria Creusa, Zezé Gonzaga. Esta, com arranjos do mesmo Radamés.

De certo modo, o próprio Valzinho contribuiu para que não fosse tão conhecido quanto o irmão mais novo, Newton Teixeira, a quem a música popular deve pelo menos dois clássicos, um de Carnaval, “Mal-me-quer”, e outro de meio de ano, “Deusa da Minha Rua”. Homem simples, fechado, tímido na hora de mostrar suas composições, deixaria obra valiosa, mas pequena. Segundo o Ecad, não mais que 20 canções. “Na verdade, são 35, entre as já gravadas e algumas inéditas”, apressa-se em corrigir seu sobrinho Edgard Costa, hoje responsável pela conservação do acervo dos que ele chama de “os Teixeiras”, ou seja, Valzinho e Newton.

Edgar tem tudo devidamente guardado no pequeno arquivo-museu que montou num apartamento. O trabalho consiste em levantamento das composições dos dois, disponibilização pela internet, criação de site e até mesmo a gravação da obra de Valzinho “como ele mesmo a criou”. Para isso, Edgar conta com a assessoria musical de Delia Fischer, incumbida de passar para o pentagrama as tais “surpresas e sutilezas” harmônicas que tanto impressionaram Tom Jobim.

A redescoberta de Valzinho pela turma mais jovem viveu momento importante quando, em 1979, Hermínio Bello de Carvalho pôs o compositor diante do gravador e pediu que ele interpretasse, acompanhando-se ao violão, “todas as suas canções”. Das 28 que Valzinho gravou, foram editadas 20. Quinze delas estão no LP que Hermínio produziu com Zezé Gonzaga e o Quinteto de Radamés. Quinze meses depois, em janeiro de 1980, Valzinho, nascido Norival Carlos Teixeira, morreu, aos 65 anos.

Trabalhando em Portugal, Edgar voltou ao Brasil em 2010, quando o irmão Ary morreu. Este tinha começado a cuidar do acervo dos tios, incluindo bronzes e medalhas, trabalhos do artista Valzinho, funcionário aposentado da Casa da Moeda e escultor com curso no Museu de Belas Artes. Além, é claro, de discos, fitas, partituras impressas e manuscritas. Edgard decidiu substituir o irmão, começando por dois sites que põem a obra dos dois à disposição do público: valzinho.os-teixeiras.com e newton.os-teixeiras.com, já no ar.

A ideia de gravar ou regravar as canções tal qual foram feitas resultou num projeto quase perfeito. Delia passou para a pauta melodia e harmonia, e ela mesma tocou-as no piano. Numa, “Arrependimento”, ainda sem letra, Joana Adnet solou a melodia no clarinete. Outra, “Iluminado”, já letrada por Ronaldo Bastos, ainda está inédita. O “quase perfeito” do resultado é porque, se melodia e harmonia são fielmente revividas, a batida do violão, bem bossa nova, não é a de Valzinho, por mais precursor que ele tenha sido.

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