Vigor contemporâneo nos livros

Bienal do Livro de Minas e Circuito Literário da Praça da Liberdade são destaques do ano na literatura mineira

iG Minas Gerais | Júlio Assis |

Entusiasmo. A Chuva de Poesia, trazida pelo poeta Guilherme Mansur de Ouro Preto para Belo Horizonte, foi uma das ações marcantes do primeiro Circuito Literário Praça da Liberdade, em novembro
Leo Lara ARVORE DE COMUNICACAO d
Entusiasmo. A Chuva de Poesia, trazida pelo poeta Guilherme Mansur de Ouro Preto para Belo Horizonte, foi uma das ações marcantes do primeiro Circuito Literário Praça da Liberdade, em novembro

 

Todos os anos morrem escritores, mas os que perdemos em 2014 deixaram com maior intensidade aquela sensação de vazio. Dificilmente ocorrerá novamente o fato de não contarmos mais entre nós, em um curto período de tempo, com autores do quilate de um Gabriel García Márquez, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Manoel de Barros. Mas o ano foi de muitas outras grandes perdas na cultura, lacunas que estão sendo tratadas em uma retrospectiva especial que será publicada neste Magazine na próxima quarta-feira.

Dito isso e direcionando o foco para a produção literária e o que gira em torno dela, Belo Horizonte ofereceu em 2014, entre tantas outras iniciativas no segmento, dois eventos de grande porte: a 4ª Bienal do Livro de Minas e o Circuito Literário da Praça da Liberdade.

A bienal teve o escritor João Paulo Cuenca na curadoria do programa Café Literário, encontro dos autores com o público. A avaliação dele espelha um pouco da dinâmica que marcou a literatura brasileira neste ano. “Nesse tipo de curadoria gosto de trazer para o centro do debate o livro, mas sempre em contraste com o contexto político e social do país a cada momento. Eu poderia falar de todas as mesas da bienal, mas destaco a do André Sant’Anna com Luiz Ruffato, Miriam Leitão e Edney Silvestre, e Lira Neto e Paulo César de Araújo. Na ordem, eles falaram de política no Brasil em 2014, de um olhar literário sobre a ditadura militar e também sobre a questão das biografias – uma pré-censura absurda que é lei no Brasil. Se a gente pensar bem, os temas e as mesas são todos interligados. Formam um painel do Brasil e das suas contradições em 2014”, afirma.

Já o Circuito Literário da Praça da Liberdade foi realizado pela primeira vez com uma vasta programação e o respaldo do público, que participou ativamente da programação, já dá o aval para a continuidade do projeto.

Em âmbito nacional, como acontece todos os anos, os prêmios funcionam como referenciais da nossa produção literária. Os jurados do Jabuti escolheram Laurentino Gomes, por seu livro-reportagem “1889” e Marina Colasanti, pelo infantil “Breve História de um Pequeno Amor”, como os autores dos Livros do Ano, o primeiro de não ficção e o segundo, de ficção. O Prêmio São Paulo elegeu “Anel de Vidro (Ouro sobre Azul)”, da paulista Ana Luisa Escorel. E o Portugal-Telecom escolheu o romance “O Drible”, de Sérgio Rodrigues, mineiro de Muriaé radicado no Rio de Janeiro desde 1980.

Rodrigues é também um estudioso da literatura brasileira e mantém o blog literário todoprosa.com.br. Ele analisa como positivo o atual panorama literário nacional. “O momento é bom, produtivo, animado, com muita gente boa escrevendo e num universo eclético. O desafio que temos pela frente é o da maior aproximação com os leitores. Prosseguimos com um forte analfabetismo funcional em que a escola brasileira não contribui para o domínio linguístico que gere atração pela literatura. Isso precisa então ser conseguido na família ou na biblioteca. Ainda assim temos uma população de mais de 200 milhões de habitantes, o que torna grande a parcela que se interessa pelos livros, mas ela tem dado preferência a escritores estrangeiros, a uma literatura escapista. Em parte a culpa é da nossa própria literatura, que durante um período se distanciou do leitor, oferecendo um discurso para poucos e muito voltado para o ambiente acadêmico, como se a literatura devesse ser hermética. Mas observo que isso vem mudando em muitos autores contemporâneos, a literatura precisa ser o país conversando consigo mesmo, sobre quem ele é, os problemas que ele tem, um espelho sem filtro, e de forma mais leve” reflete.

João Paulo Cuenca vê de forma semelhante: “o trabalho de uma geração de escritores surgidos da década de 2000 tem se consolidado dentro do panorama da literatura contemporânea brasileira”.

Sérgio Rodrigues cita dois exemplos não exatamente deste ano, mas que se enquadram nessa contemporaneidade. “Os livros ‘Diário da Queda’, do Michel Laub, e ‘Habitante Irreal’, do Paulo Scott, seriam best-sellers em qualquer país, não viraram porque saíram no Brasil”, pondera. Ou seja, eles têm reconhecimento, estão ganhando novas tiragens e sendo traduzidos para outros idiomas, mas não na proporção que já poderiam ter.

 

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